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Tainá de Paula

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Canecão e os novos espaços de cultura do Brasil: um debate urgente

Fachada da antiga casa de espetáculos Canecão no Rio de Janeiro em 2019, após dez anos de abandono - Poti100/Wikimedia Commons
Fachada da antiga casa de espetáculos Canecão no Rio de Janeiro em 2019, após dez anos de abandono Imagem: Poti100/Wikimedia Commons

Tainá de Paula

14/11/2021 06h00

A Cultura é o setor que mais sofre no que aparenta ser a reta final da pandemia. Seguimos, claro, com grandes preocupações. Muitos ainda não se sentem confortáveis a voltar aos espaços fechados de maior aglomeração como casas de shows, cinemas e teatros. E a pandemia continua, o que impede a derrubada da necessidade da utilização de máscara. Um dos últimos setores a voltar, a cultura segue caminhando com dificuldades.

Foi extremamente bem-vinda a Lei Aldir Blanc de Emergência cultural, de autoria de Benedita da Silva, que permitiu que artistas, produtores e fazedores de cultura em geral tivessem alguma renda em um período da pandemia. Assim como os Editais que foram lançados pelos governos municipais e estaduais. Entretanto, está longe de ser suficiente. A pandemia foi extremamente dura e precisamos de um incentivo ainda maior no setor. O dinheiro não conseguiu cobrir as adaptações necessárias para o pleno funcionamento, como aberturas de vãos, instalação de filtros Hepa (utilizadas no combate à propagação de vírus e bactérias e eficaz contra o COVID-19) Precisamos não somente de investimentos para que os eventos aconteçam, é necessário que a cena de cultura nas cidades seja ampliada.

No Rio de Janeiro, nos últimos meses têm tramitado na Câmara dos Vereadores um projeto de lei complementar que autoriza a construção de um aparelho cultural multiuso na região onde era o antigo Canecão. E esse PLC merece uma atenção especial. Não só pela sua importância, mas por ter pontos a serem resolvidos e esclarecidos para que o Canecão volte com todo o seu potencial artístico, cultural e científico. Apesar das preocupações de possíveis espigões na Praia Vermelha, devido a um antigo projeto de gestões anteriores terem sido descartadas, cabe agora à Câmara corrigir os últimos detalhes no projeto de lei para que o Canecão possa voltar sem atrapalhar a vida dos moradores da região.

Localizado entre Botafogo, Urca e Copacabana, o Canecão pertence à UFRJ após uma longa batalha judicial. Ainda na gestão dos antigos proprietários, funcionava ilegalmente. Possuía uma série de dívidas trabalhistas. Agora, com a propriedade da UFRJ, a situação será outra. Não será somente uma casa de shows, mas também um centro de cultura, um espaço para aprendizado e reprodução do conhecimento, um teatro, seja para grandes ou pequenos espetáculos.

Apesar desta reabertura tão esperada, assim como o Canecão, uma série de outras casas de shows e teatros perderam o fôlego, antes mesmo da pandemia, fechando um ciclo cultural no Brasil. Os palcos com grandes dimensões são cada vez mais substituídos por escalas menores de palco e até mesmo teatros virtuais. Teatros com boca de cena adaptada, com capacidade para até 120 pessoas são revisitados, entendendo-se não só os aspectos de segurança sanitária mas também os custos de manutenção de um grande teatro, na contramão do que ocorreu nas últimas décadas do século 20, com o fechamento dos teatros e cinemas de rua.

É urgente portanto estabelecer um novo entendimento do dimensionamento dos teatros e cinemas e sua localização na cidade. Palcos locais, pontos de cultura, arenas ao ar livre nunca foram tão necessárias para se reconstituir o ecossistema cultural das artes cênicas e musicais. Se antes da pandemia pensávamos os equipamentos culturais de relevância aqueles que eram pólos geradores de tráfego, no pós-pandemia temos que projetar as novas vanguardas do ambiente teatral, resgatando as utopias, como o Teatro Del Mondo. Talvez seja necessário pensar novos espaços e o novo lugar da arte cênica. Efêmera com o Teatro del Mondo? Não sabemos, mas sem dúvida altiva, onipresente e necessária como ele.

Nessa toada há de se pensar a efemeridade dos espaços cênicos, cabe a pesquisa do Festival de Teatro de Chicester, ou Teatro Satélite de Francis Kéré, que discutem rapidez de montagem, a possibilidade da reprodutibilidade e a fácil ventilação dos tipos cênicos. É prudente nesse sentido pensar um século XXI com bairros cada vez mais ricos de espaços culturais e de palcos, menos monumentais e cada vez mais próximos da população. Afinal, uma cidade sem palcos perde a capacidade de rir e se emocionar. Que venham mais "Canecões", que venham mais ribaltas e anfiteatros. Como diria o artista em estreia, desejando sorte: merda para nós!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL