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Economia da rosquinha

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

01/07/2020 04h00

"De onde vem nossa obsessão por crescimento?"

Antes de continuar lendo, permita-se refletir sobre essa provocação por mais alguns momentos. Perceba qual a primeira resposta que vem à mente.

Quem nos faz essa provocação é Kate Raworth, economista inglesa que propõe um modelo econômico baseado num equilíbrio entre necessidades humanas essenciais e as fronteiras planetárias.

Para nos ajudar a entender o porquê dessa obsessão por crescimento, Kate nos lembra de um livro da década de 60, escrito por W. W. Rostow, intitulado: "Etapas do Desenvolvimento Econômico: um manifesto não-comunista". Livro esse que traz, basicamente, uma leitura do caminho que trilhamos até os dias atuais. Abaixo, uma breve explicação do que postula o autor do livro:

Rostow começa por observar que a tecnologia, mentalidade e instituições de uma nação limitam sua produção. Passa pelo setor bancário e mecanização do trabalho, bem como a crença de que o crescimento é necessário para superar a si mesmo. Chega nos juros compostos, que atingem as instituições da economia, e o crescimento se torna padrão. Atinge-se a maturidade, onde é possível ter qualquer indústria que se deseja, seja qual for a base de recursos naturais. Por último, o tão atual consumo em massa e a possibilidade de as pessoas comprarem os bens que quiserem (ainda que não seja realidade compartilhada por todos).

Ainda nas palavras de Kate, esse caminho que trilhamos se assemelha a um avião que um dia decolou e hoje não para mais de voar, querendo chegar cada vez mais alto e mais longe, sem previsão alguma para pousar.

O que a gente esquece, ou talvez sequer perceba, é que esse voo não é sustentável. Do ponto de vista ecológico, pelo fato de os recursos do planeta serem finitos. Do ponto de vista social, basta lembrarmos que 82% da riqueza do mundo está nas mãos dos 1% mais ricos, e do quanto de desigualdade existe no mundo.

Engana-se quem acha que tudo se resume a mérito e força de vontade. O sistema é desenhado para o acúmulo, e não para a distribuição. Para continuar a existir, esse sistema se molda e adapta, absorvendo toda tentativa de transformação de sua lógica.

Ainda assim, e felizmente, sempre é possível continuar provocando e contando novas histórias, para cada vez mais trazer alternativas a essa visão que tem consumido a Terra cada dia mais rápido e produzido mais desigualdades.

Ah, ponto importante: você não ver os impactos desse sistema ao seu redor não significa que os impactos não aconteçam, tá. O mundo é muito maior que nosso quintal.

Ponderação feita, voltemos à provocação.

Kate propõe uma visão ousada e inusitada. Ousada, por cutucar as raízes do que parece imutável. Inusitada, por vir na forma de uma rosquinha.

Se a gente substitui a ideia de crescimento pela ideia de progresso? E se nos permitimos compreender que limites são naturais, parte da natureza mesmo, e que gente é parte dessa natureza? Que, mesmo sem crescimento infinito, é possível prosperarmos, individual e coletivamente?

Bem-vindas e bem-vindos à economia da rosquinha.

Economia da rosquinha - Amanda Monteiro/Ciclovivo.com.br - Amanda Monteiro/Ciclovivo.com.br
Imagem: Amanda Monteiro/Ciclovivo.com.br

Ela propõe uma economia alicerçada em 12 aspectos sociais e uma proposição de pensarmos políticas e soluções que garantam que esse alicerce dê conta de cuidar de todas e todos. E, junto disso, um teto ecológico que nos lembra que existe um limiar que, se cruzado, começa a trazer impactos para a Terra que podem ser irreversíveis.

Spoiler: já cruzamos alguns desses limiares e estamos chegando no ponto crítico de outros, viu.

Entre o alicerce e teto propostos, reside um espaço. Um espaço que é ocupado, adivinha: pela gente. Eu, tu, elas e eles, nós. Todas as pessoas viventes nessa terra. E, nesse espaço, duas buscas:

1) Um espaço seguro e justo para a humanidade, onde seja possível garantir a existência de cada pessoa e o acolhimento da diversidade que somos enquanto povos, culturas e indivíduos, levando em conta aspectos sociais, econômicos e ambientais.

2) Uma economia regenerativa e distributiva, que respeite a Terra e não tenha suas premissas de sucesso pautadas no acúmulo, mas em nossa capacidade de distribuir e prosperar individual e coletivamente, e que, para um ganhar, o outro não precisa perder ou sofrer e passar aperto.

- Pô, mas isso aí é óbvio demais, Sérgio!

Sim. Tão óbvio que, talvez, só desenhando pra gente descobrir o óbvio, né?

E o que nos mantém distante de uma economia da rosquinha?

Vixi, só essa pergunta já daria uma centena de livros sobre mudança e comportamento, né. Vou trazer um aspecto de mudança comportamental que ajuda a ter uma ideia de nossa resistência a uma nova forma de economia.

Reparou essa parada de home office, agora, em tempos de pandemia? Quanta gente começou home office. Um monte de empresa está começando a aderir o home office de vez ou adotando um sistema híbrido, com algumas escalas nos escritórios.

Essa conversa de home office já existe, ó, faz tempo. Eu mesmo, 12 anos atrás, já vivia dilemas e tretas com alguns lugares onde trabalhei, militando pela possibilidade de trabalhar de casa, ao menos parcialmente. Na última empresa, multinacional, foi um martírio até eu conseguir aprovação para trabalhar de casa. Consegui, mas foi exceção.

Poucas empresas eram adeptas dessa possibilidade. Existia até uma hostilidade e ceticismo em relação a quem vinha com a ideia de não precisar estar na empresa o tempo todo. Salvo nichos específicos como tecnologia e desenvolvimento web que, por sua natureza, tinham o trabalho remoto como uma possibilidade e até benefício, visto que bons profissionais poderiam estar longe do local de contratação.

Então, veio uma pandemia e... tcharam! Home office para geral. Saúde e evitar a morte, em primeiro lugar. Uma pandemia nos "forçando" a adotar uma estratégia que, outrora, soaria como inviável e sem sentido.

Para fechar, resgato duas falas de mestres que me acompanham nessa breve jornada de exploração da vida:

Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda. (Sigmund Freud)

Ostra feliz não faz pérola. Precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. [...] (Rubem Alves)

Qual grão de areia será necessário para a gente pousar o avião e começar a implementar essa tal de economia da rosquinha?

Sérgio Luciano