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O valor de cada ação em um mundo em transição

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

06/05/2020 10h06

Vivemos hoje uma Sociedade de Crescimento Industrial. Nossa economia depende de consumos cada vez maiores de recursos. E para manter nossos motores de progresso, a Terra é tanto fornecedora quanto esgoto.

E se você sente que o ritmo parece ficar cada vez mais acelerado, você está certo. A lógica dessa sociedade é exponencial e exige não apenas um crescimento constante, mas também que corramos cada vez mais rápido para ficarmos no mesmo lugar.

Segundo os renomados especialistas nessa visão de mundo: "- Se você não correr e não se atualizar, você vai ficar para trás". Além de consumirmos os recursos da Terra mais do que ela dá conta de regenerar, que por si só já é uma loucura, nos consumimos a nós mesmos na mesma intensidade. Vide a nova tendência de mercado: o burnout.

Se a gente segue nessa lógica, o que deixaremos de legado para gerações futuras? E o que queremos, de fato, deixar de legado para gerações futuras?

Criamos coletivamente presentes e futuros que não desejamos individualmente.

Eu, por exemplo, não quero para minhas sobrinhas (não tenho filhos) um futuro distópico onde precisarão lutar para sobreviver e conseguir o básico, água e comida. Ou que as condições climáticas sejam um risco cotidiano à vida. Tampouco quero uma velhice nesse mesmo futuro.

Quem o quer? Difícil conceber que alguém busque futuros que descuidam do bem-estar de si e daqueles com quem se importam.

Indo além, tampouco me sinto confortável com um presente que já é distópico. Onde pessoas precisam lutar para acessar água e comida, que não morrer ao final do dia é uma ambição e um martírio, já que no outro dia tudo parece que será igual.

E por que raios a gente ainda vive coletivamente nesse paradigma?

Tenho uma resposta pronta e tentadora: "- Porque tem pessoas no poder que querem manter as coisas como são. Se estas pessoas mudam, tudo muda."

Na real, gosto dessa resposta. Não acho de todo errada. Afinal, pessoas em papéis de poder que são valorizados nessa Sociedade de Crescimento Industrial recebem, enquanto indivíduos, muitos benefícios e privilégios decorrentes desses papéis. Por exemplo, o status e dinheiro garantidos a um CEO de uma grande empresa. E ir contra os valores pregados por essa Sociedade de Crescimento Industrial traz um alto risco de perder estes privilégios. Nem todos estão dispostos a correr o risco e pagar o preço.

Porém, ela não me satisfaz por completo. Não acredito que precisamos escolher entre uma coisa ou outra. Acho que podemos encontrar outras ações de transformação a partir de onde nossa voz e braços alcançam. Ainda que não pareçam ter tanto resultado quanto a mudança de discurso de um presidente ou CEO.

E no nível micro as decisões podem ser tão complexas quanto, ainda que o impacto no coletivo pareça ser muito menor. Pareça ser, viu. Afinal, imagina milhões de pequenas ações juntas o quanto contribuem para o fortalecimento de uma cultura?

Por exemplo, uma pessoa que pode escolher comprar roupas de lojas que mapeiam sua cadeia de fornecedores para garantir condições humanas de trabalho e cuidado com o meio ambiente, mas não o faz porque prefere pagar 70% menos em outra loja, garantindo o dinheiro das viagens no final do mês.

Não tô criticando e dizendo que é errado o comportamento acima. Tô só falando sobre escolhas. Cada um tem seus desafios e sabe onde o calo aperta na hora de fazer uma escolha consciente. Além de tantas outras pessoas que a escolha de ser consciente está limitada pela desigualdade que o sistema produz.

E, respondendo à pergunta "Por que raios a gente ainda vive coletivamente nesse paradigma?", diria que:

1. Porque pode ser difícil pra cacete abrir mão de alguns privilégios;

2. Temos uma visão de mundo tão enraizada nessa Sociedade de Crescimento Industrial que não nos permitimos enxergar outras possibilidades;

3. Porque novos paradigmas requerem uma revisão profunda nos privilégios que adquirimos a partir do paradigma atual.

Então quer dizer que tudo tá perdido?

Não! Bem, acho que não. Espero que não.

Podemos fazer escolhas individuais e a partir dos papéis que representamos, ainda que sejam difíceis. Além disso, buscar auto desenvolvimento para sustentar o desconforto das mudanças necessárias.

Eu, no papel de colunista ocupando este espaço de comunicação na UOL, posso falar sobre novos paradigmas, ainda que desafiem o senso comum. E falar sobre possíveis caminhos para uma transição.

No papel de empreendedor, posso desenhar meus produtos, serviços e processos de forma a reverberar um paradigma do qual acredito, atendendo necessidades do meu público a partir dessa visão.

Nos papéis referentes ao vínculo familiar, posso falar sobre os temas que acredito e trazer novas perspectivas, sempre respeitando e acolhendo as diferenças de visão e buscando compreender o que de importante está por trás da visão do outro.

No papel de cidadão, posso encontrar representantes políticos, acompanhá-los e cobrá-los diretamente de ações e decisões voltadas para sustentabilidade e respeito à diversidade. Também posso me juntar a movimentos não-violentos que buscam fazer pressão por decisões de representantes.

No papel de consumidor, posso escolher de quais empresas comprar, e de quais não comprar. E ainda convidar pessoas de minhas redes para fazerem o mesmo. E, se for o caso, apontar aquelas empresas com as quais não concordo com as práticas e somar com outras vozes que fazem pressão para estas empresas (que são figuras jurídicas de grande poder) mudarem seu posicionamento, processos e políticas.

Lembre-se que o fato de não vermos os impactos de nossas ações individuais não significa que elas não valem nada. Cada ação importa.

Continue fazendo o que está a seu alcance e cobrando pessoas em posições de poder e instituições de fazerem o mesmo.

E quais alternativas à Sociedade de Crescimento Industrial?

Ecoando minha voz com a de tantas outras pessoas, proponho uma transição para uma 'Sociedade que Sustenta, promove e celebra a vida'.

Uma Sociedade que enxerga a Terra como um organismo vivo e que precisa ser respeitado, e que reconhece que somos parte dela, não donos. Que honra e acolhe tudo que construímos de tecnologia e recursos até hoje, enluta os danos que causamos e escolhe conscientemente um caminho da regeneração. Que busca garantir saúde e bem-estar para cada ser humano. Que leva a diversidade, em seus diversos aspectos, como valor central. Onde os indivíduos se pautam empatia e compaixão para olharem para si e para o outro.

Essa transição já tem acontecido. E a resistência é parte do processo de mudança. A pergunta que fica é:

- Qual papel você quer assumir na sociedade que juntos vivemos a construir?

Sérgio Luciano