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Você também tem sido improdutivo?

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

15/04/2020 04h00

20 dias improdutivo.

Improdutivo aqui significa que não consegui dedicar mais que 25% da minha energia e tempo a trabalho. Na real, às vezes bem menos que isso.

E-mails que levam uns sete dias para serem respondidos. Conversas que ficaram para trás. Projetos que ficaram congelados. Conteúdos que não consegui escrever para o UOL. Dentre outras coisas.

20 dias improdutivo, acompanhado de sintomas físicos de Covid-19 (que possivelmente eu só vá descobrir no futuro se peguei ou não) e de sintomas psicológicos e emocionais de não saber se no outro dia minha saúde estará melhor ou pior.

Felizmente, neste momento que escrevo, tem uns dias que vejo meu corpo melhorar dia após dia, e com beeeem menos impactos emocionais e psicológicos. Mas, ainda bem improdutivo, cuidando de descanso e restauração.

E, nesse tempo, vendo um monte de gente produtiva. Fazendo 1001 encontros e transbordando felicidade com isso. Fazendo "todos os cursos que sempre quiseram e nunca tiveram tempo de fazer". Dando um gás e sendo produtivos. Alguns, 101% produtivos.

Eu aqui, algumas horas me achando um merda. Pensamento que surge quando olho pra grama dos vizinhos produtivos.

- Como assim eu não estou aproveitando essa "PAUSA" e não estou dedicando energia pra nada? Estou com a saúde mais ou menos, mas tô vivo. Você deveria fazer mais, Sérgio.

Talvez você não esteja com covid-19. Torço para que não esteja, aliás. Mas isso não significa que tudo que está rolando não esteja te afetando. Isso não quer dizer que alguma dor emocional que você tenha precisa ser ignorada. E pode ser que você também esteja, em alguns momentos, se sentindo um merda por não estar a milhão como uma galera ao seu redor. Ou como o seu senso de produtividade diz que teria que ser.

Pois te digo: - Tá tudo bem não estar a milhão, viu. Aliás, digo primeiro pra mim, e depois pra você.

- Tá tudo bem não estarmos a milhão.

Eu estava a milhão antes dessa crise toda. E o corpo já pedia pausa e descanso, faz tempo. E esse "estar a milhão" é algo que está muito presente na sociedade. Sempre dá para fazer um pouco mais, é só se forçar.

Sim, se forçar. Afinal, hoje em dia esforçar e forçar já se tornaram um só. Esforço sem dar o sangue, não é esforço. Suor é pouco. Inclusive, essa correria doida é uma das causas de tanto burnout e depressão que vemos por aí nos últimos tempos.

Correr, correr, correr. Se a vida é curta para desacelerar um pouco e respirar fundo, imagina para uma pausa.

Veja, não estou dizendo que ser produtivo não é necessário. Longe disso. Acho importante estarmos em movimento e produzirmos. Porém, estou reaprendendo, na marra, que as pausas são tão importantes quanto. Nem melhores, nem piores. A mesma importância. Do nível individual ao nível global. As visíveis quedas na emissão de gás carbônico e o céu azul há tempos nunca visto em alguns lugares, que o digam.

Com isso, quero dizer, para mim e para você:

- Não nos envergonhemos de tomar pausas. Ou da dita improdutividade.

Termos consciência sim, vergonha não.

Faz tempo que queria dar menos peso para uma voz que grita, dia após dia: "você vai ficar pra trás se tirar o pé", "seja grande e o melhor dos melhores, senão não será ninguém", "seja melhor que o vizinho", e por aí vai.

Essa voz rege a sociedade. Não é minha. Não é sua. É nossa. É coletiva. Talvez, fruto das decisões individuais e coletivas que tivemos nos últimos muitos, muitos anos. E que continua a ser reforçada com cada decisão que tomamos de seguir correndo e crescendo a todo custo.

O que a gente leva dessa vida? De fato, não sei.

Mas, enquanto essa vida eu tenho, percebo que quero parar um pouco de correr e começar a caminhar. Apreciar mais a beleza do caminho, e ser menos faca na caveira com as metas a buscar.

Uma voz, ao fundo, sussurra: de que vale ganhar o mundo inteiro, e perder a alma?

Sim. Uma alma nutrida. Se ela vai para algum lugar, dessa vida é isso que quero levar.

E como termos uma alma coletiva mais nutrida? Alma essa que alimenta a forma como nos relacionamos uns com os outros e com a Terra.

Futuros possíveis e emergentes a partir da crise atual. É disso que vou continuar falando nas próximas semanas. Te espero na quarta que vem.

Sérgio Luciano