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Autocuidado em tempos de pandemia

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

01/09/2020 04h00

Sempre que posso tenho tomado um pouco de sol perto da janela da sala do apartamento onde moro. Procuro relaxar, sentir o calor do sol, não pensar em nada. Me inspiro nos gatos, que conseguem estar presentes apenas no momento, muito conectados consigo mesmos e com seus corpos, se espreguiçando constantemente. Admiro esse estado meditativo de interiorização e conexão profunda que os gatos parecem ter.

Tenho tentado meditar algumas vezes por dia e confesso que esse tem sido um exercício difícil. Com a pandemia tem sido desafiador manter minha atenção apenas no momento presente. O estresse e a ansiedade chegaram de fininho e têm me acompanhado, aos poucos acumulando tensões e dores físicas e emocionais conforme a pandemia tem se prolongado.

Não sou a única. A mãe de uma amiga foi internada semana passada com pressão alta; uns 15 dias atrás uma conhecida foi para o pronto socorro com crise de ansiedade; e ontem meu sogro esteve no hospital devido a falta de ar. Tenho ouvido cada vez mais situações desse tipo em meu círculo de amigos e conhecidos nos últimos meses.

A mudança na rotina, o isolamento e falta de convívio social ou a convivência mais intensa com familiares, a preocupação com a saúde, com o trabalho e com o futuro, além, é claro, do momento político e econômico desafiador que enfrentamos no Brasil têm sido fatores estressores.

Uma pesquisa realizada pela UERJ mostra que houve um aumento nos casos de ansiedade e estresse e que os casos de depressão praticamente dobraram durante a pandemia do coronavírus.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, Ana Cláudia Latrônico, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, comenta que o aumento do estresse pode levar a alterações hormonais, mudanças nos padrões de sono e alimentação, afetar a libido, a capacidade de concentração e atenção, memória e processos cognitivos. Também pode causar o agravamento dos problemas de saúde crônicos, principalmente se a pessoa reduziu sua atividade física e relaxou o uso de medicamentos. O maior consumo de álcool, cigarro e drogas nesse período de isolamento também podem ter um custo alto.

É muito provável que os transtornos psicológicos como ansiedade e depressão representarão uma segunda onda de estragos à saúde, pós pandemia do covid-19.

Já escrevi nesta coluna sobre como, independente do coronavírus, a depressão e a ansiedade têm sido a pandemia do século XXI. Também escrevi sobre as dificuldades nas relações familiares neste momento de quarentena: Relações na quarentena: tênis ou frescobol? E já falei um pouco sobre como viver o momento presente, conscientes do aqui e agora, pode contribuir para reduzir o estresse, a ansiedade, a depressão e dores crônicas: Kairós, Flow e a essência da vida.

Neste momento em que enfrentamos essa situação estressante coletiva que tem se prolongado por tempo indefinido, percebo o quanto tem sido importante para mim realmente levar a sério o autocuidado, tanto físico quanto emocional e mental.

Tenho me esforçado para cuidar do corpo fazendo refeições saudáveis e equilibradas, atividade física regular e dormir o suficiente. Depois de vários meses em confinamento, decidimos, eu e meu marido, de vez em quando fazer caminhadas pelo bairro. Para evitar lugares com muitas pessoas, como a praça perto de casa onde costumávamos caminhar, temos saído para andar pelas ruas próximas que são mais vazias. Temos descoberto lugares muito interessantes que nunca tínhamos visitado nos 3 anos em que moramos aqui e isso tem nos apoiado a espairecer e relaxar. O contato com a natureza, mesmo que seja apenas estar ao ar livre, me ajuda muito a transcender a experiência mais restrita e imediata de meu corpo e me conectar com a sensação de que faço parte de algo maior. Sentir o sol e uma leve brisa no rosto, ver as folhas das árvores se movendo ao vento enquanto caminho já me trazem essa sensação de expansão e relaxamento.

Quando sinto dificuldade em dormir, tenho escutado gravações de meditações guiadas que encontro gratuitamente no YouTube e é tiro e queda: durmo rápida e profundamente!

Com certa constância tento reservar semanalmente um tempo para conversar com amigos e familiares para cuidar de minhas relações interpessoais.

Também tenho buscado manter uma rotina regular de trabalho, aprendizagem, relaxamento e diversão. Tento não ficar tanto tempo na internet e em vez disso ler livros interessantes, assistir filmes, meditar, tomar sol quando possível, cuidar das plantas e até mesmo limpar a casa tem sido uma distração.

Se você tem se sentido estressado, ansioso ou depressivo, sugiro que procure informações e comece também uma rotina de autocuidado. Os links que indiquei nesse texto e as atividades que descrevi acima podem ser um bom começo.

Caso você não esteja conseguindo se cuidar muito bem sozinho, não hesite em procurar um psicólogo e/ou um médico. Talvez você precise de um tratamento mais focado, com antidepressivos ou com medicamentos. Busque ajuda! Não espere a situação ficar insustentável!

Seguem mais algumas referências de autocuidado:

Cartilha para enfrentamento do estresse em tempos de pandemia

CVV - Centro de Valorização da Vida

Alguns serviços de apoio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.