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Empoderamento feminino e a Mandala da Prosperidade

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

07/07/2020 04h00

O que te levaria a entrar num grupo que promete, com um investimento inicial de 5 mil reais, receber 8 vezes mais? Além do dinheiro, valores como sororidade, solidariedade, confiança entre mulheres, desenvolvimento pessoal, cura e abundância compartilhada são motivadores para você? Talvez você já tenha sido convidada a participar ou conhece alguém que esteja recrutando novas mulheres.

Recentemente uma amiga me contou, muito preocupada, que havia sido convidada por uma conhecida a entrar em um grupo que promete todas essas coisas acima. A Mandala da Prosperidade, também conhecida como Tear dos Sonhos, Mandala Feminina, Fractal, Células de Abundância, Flor da Prosperidade ou Flor da Abundância, é um velho esquema de pirâmide sob uma nova roupagem mais atual e atraente, de magia, desenvolvimento espiritual e apoio mútuo exclusivamente para mulheres.
Minha amiga estava chocada e inconformada com o sucesso que esse esquema tem feito e como mulheres instruídas e inteligentes têm caído na armadilha.

Em muitos casos o que faz as pessoas se juntarem a grupos como esses é talvez um momento de solidão, vulnerabilidade econômica, emocional ou social, que nada tem a ver com inteligência ou grau de instrução, somados à necessidade humana e universal de pertencimento a algo maior, de se sentir contribuindo com outras pessoas e com uma boa causa.

A exploração dessas necessidades se assemelha ao que acontece também em seitas religiosas, com a diferença de que na Mandala da Prosperidade não há um guru, mas uma ideia/ideologia central e um "caminho de evolução" a ser percorrido.

O apelo dessas iniciativas sem uma figura central fica ainda maior em meio ao movimento que tem ocorrido nos últimos anos de denúncias de gurus e líderes espirituais por abuso sexual e abuso de poder. A percepção de segurança e confiança tende a aumentar por serem grupos somente de mulheres, sem esses perigos apresentados pelas figuras de autoridade masculinas. Mas no fundo a manipulação e a exploração estão também presentes.

O esquema de pirâmide fica camuflado por trás de uma linguagem espiritualizada ou mística de desenvolvimento pessoal e muitas vezes é usado um discurso feminista, de empoderamento feminino e de luta contra o patriarcado.

Dentro do belo discurso de fraternidade e solidariedade, cada mulher deve dar um pouco do próprio dinheiro para realizar o sonho de apenas uma a cada "novo ciclo" como se o dinheiro fosse circular entre todas. Mas na prática é um esquema de pirâmide convencional, um modelo comercial não sustentável, que depende do recrutamento constante de pessoas novas, em que sempre haverá muitas a doar dinheiro sem nada receber.

Se você entrou, está se sentindo desconfortável e precisa de apoio, busque informações em fontes externas. No facebook existe inclusive um Grupo de conscientização sobre a Mandala da Prosperidade ou Tear dos Sonhos.

No vídeo "Como identificar que você está numa seita maluca", Ana Roxo amplia a ideia de "seita" para qualquer grupo que possua certas características de controle e imposição de poder, independente da roupagem.

Frederico Mattos também investiga e traz mais entendimento sobre as semelhanças entre cultos, seitas religiosas e esquemas de pirâmide, como funcionam e porque tem gente que ainda cai nisso, no texto "Como a lavagem cerebral funciona (mentalidade de seita, por que acontece e quais os antídotos?)."

Talvez a exploração, a imposição de poder e o abuso só existam em tantos grupos devido à escassez de ambientes com relações mais saudáveis, onde necessidades humanas tão universais e fundamentais são naturalmente atendidas.

Quando o senso de comunidade, de pertencimento e contribuição para o mundo, o apoio mútuo, o reconhecimento, a valorização pessoal, e até mesmo o propósito e o sentido para a vida não estão presentes nas relações e nos grupos em que convivemos, é natural que busquemos espaços onde podemos encontrar tudo isso, ficando muitas vezes "cegas" em relação a manipulações e explorações, muitas vezes disfarçadas de orientação e ajuda.

Então, fiquemos atentas. Vamos apoiar umas às outras de verdade, buscando fortalecer e criar espaços que atendam às nossas necessidades humanas universais em meio a relações de respeito e liberdade, sem abusos de poder?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.