PUBLICIDADE
Topo

Vamos tornar a vida mais maravilhosa?

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

30/06/2020 04h00

Semana passada escrevi sobre relacionamentos trazendo emprestada a analogia de Rubem Alves sobre o jogo de frescobol e o jogo de tênis para descrever duas formas de nos relacionarmos. No frescobol a ideia é não deixar a bola cair e um jogador apoia o outro numa intenção colaborativa. No tênis, ao contrário, o objetivo é ganhar e consequentemente fazer o outro perder, numa relação competitiva.

São dois paradigmas distintos, que trazem resultados muito diferentes na maneira como nos relacionamos com outras pessoas.

Tenho utilizado esta analogia para descrever a essência da Comunicação Não-Violenta (CNV), uma proposta que nos apoia a jogar cada vez mais frescobol em vez de tênis.

Venho estudando, praticando e compartilhando a CNV há mais de dez anos e um dos maiores desafios que encontro é transmitir a ideia de que a CNV é um modo de vida, um paradigma, uma forma de entender e estar no mundo e não uma técnica ou uma maneira de falar.

Experienciar este outro paradigma não é descobrir algo totalmente desconhecido ou difícil de fazer. Faz parte da natureza humana a capacidade de nos conectarmos compassivamente uns com os outros. Todos nós já experimentamos em algum momento de nossas vidas essa qualidade de interação, fundamentada numa intenção cooperativa, compassiva, com apoio e empatia, como num jogo de frescobol.

O desafio não está em entender o jogo, mas em praticá-lo, já que o jogo de tênis parece ser mais popular em nossa socialização e cultura, portanto estamos mais acostumados com ele.

Desde crianças aprendemos a jogar tênis, na relação com nossos pais, amiguinhos, professores etc.

Aprendemos a competir, comparar e julgar. Aprendemos o "jogo do culpado", em que alguém está certo e alguém está errado, e quem está errado precisa ser castigado para se arrepender e pedir desculpas, enquanto quem está certo merece recompensa e premiação.

O desafio de jogar frescobol é mudar nossa intenção de querermos estar certos e querermos ganhar a discussão, para uma intenção de cooperação e compreensão mais profunda em relação ao que acontece internamente com a outra pessoa e conosco mesmos.

O criador da Comunicação Não-Violenta, Marshall Rosenberg, dizia que o objetivo da CNV é nos apoiar a jogar o jogo de "tornar a vida mais maravilhosa" em vez do "jogo do culpado".

Esses dias assisti a um filme maravilhoso, e quero deixar aqui a indicação, que retrata essa forma de "estar no mundo" alinhada com o jogo frescobol e com a CNV.

O filme "Um Lindo Dia na Vizinhança" é baseado na vida de Fred Rogers, criador e apresentador do programa infantil de TV "Mister Rogers' Neighborhood" (O bairro/vizinhança do Sr. Rogers), muito popular na década de 1960 e que foi ao ar por mais de 30 anos nos Estados Unidos.

A vida de Rogers me trouxe muita inspiração, pois me parece que ele vivia na prática a CNV, sem conhecer a CNV. Ele passou a vida buscando se conectar e acolher verdadeiramente a si mesmo e às pessoas a sua volta, com todos os seus sentimentos, necessidades e dificuldades.

Chocado com os programas infantis que via na TV, criou seu programa com a intenção de ajudar as crianças entenderem seus sentimentos e lidarem com as dificuldades da vida. Abordava temas considerados difíceis, como morte, perdas e lutos, divórcio, dúvidas sobre si mesmo, auto estima, etc., além dos acontecimentos do dia no país e no mundo.

Segundo ele, "as crianças têm sentimentos muito profundos, da mesma forma que os pais, da mesma forma que todo mundo tem. Nosso esforço para entender esses sentimentos e responder melhor a eles é o que eu sinto ser a tarefa mais importante em nosso mundo".

Acredito que nosso maior desafio e propósito na vida, de todos nós, seres humanos, talvez seja desenvolvermos nossa inteligência emocional e relacional, nos compreendermos e convivermos melhor conosco mesmos, com as pessoas a nossa volta e com todo nosso entorno, incluindo o meio ambiente e as demais espécies, buscando tornar a vida mais maravilhosa para todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.