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O "pum do palhaço" da Regina Duarte e o perigo da arte "neutra"

Regina Duarte discursa durante sua posse como secretária da Cultura - Claudio Reis/FramePhoto/Folhapress
Regina Duarte discursa durante sua posse como secretária da Cultura Imagem: Claudio Reis/FramePhoto/Folhapress
Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

12/05/2020 04h00

A arte é uma forma de expressão fundamental da experiência humana e está presente em todas as culturas e civilizações no decorrer da história. Ela é múltipla e pode espelhar o mundo e o pensamento da época e da cultura onde é produzida, bem como questionar e subverter o status quo.

A arte nunca é isenta, ao contrário do que afirmou a atual secretária da Cultura, Regina Duarte, em entrevista para a CNN na semana passada ao dizer que "a cultura está acima de partidos e ideologias".

Quando a arte e a cultura se propõem "isentas" estão apenas sendo coniventes, apoiando e reforçando ideias dominantes. Nesse sentido, ao sugerir essa neutralidade, a secretária está promovendo ela mesma o status quo. Nem mesmo o "inofensivo" pum do palhaço, citado em seu discurso de posse e agora novamente durante a entrevista, consegue ser uma manifestação artística "neutra".

Sem deixar de lado outros possíveis objetivos concomitantes, a arte está sempre a serviço, intencionalmente ou não, de um destes dois propósitos: reforçar o status quo ou questionar a visão de mundo ou paradigma vigente.

Esse caráter revolucionário que a arte pode assumir representa um grande perigo aos olhos de quem está no poder e quer aumentar ou manter os sistemas de dominação correntes. Não é à toa que durante os regimes fascistas e ditatoriais ao redor do mundo, incluindo a ditadura militar no Brasil, houve tanta censura e perseguição aos artistas e suas produções.

Já escrevi em outro texto nesta coluna sobre o flerte explícito do anterior secretário da Cultura ao regime nazista: "Roberto Alvim e a 'banalidade do mal'".

Regina Duarte faz coro ao antigo secretário minimizando a tortura e cantando trecho da música "Pra Frente Brasil", criada para a Copa do Mundo de 1970, e que se tornou um hino da propaganda ufanista da ditadura, que buscava autovangloriar o país e esconder os reais problemas do regime militar. (Veja filmes da época).

A secretária não propõe explicitamente uma arte única e previsível, como havia feito Alvim com censura a outras manifestações que não enalteçam uma visão de mundo que o mantém como é, com suas injustiças e opressões. Regina defende que "a cultura não tem lado", propõe uma arte inócua, neutra, como se isso fosse possível.

Da mesma forma que não existe um processo de educação neutra, conforme dizia Paulo Freire, não existe arte neutra. As diversas manifestações culturais ou funcionam como instrumento que reforça a conformidade com o atual sistema, ou promovem a "prática da liberdade", instigando o olhar crítico para a realidade e a participação na transformação do mundo.

Ignorar isso é apenas uma forma de manter a alienação e os sistemas de dominação como estão.

Em resposta à entrevista da secretária da Cultura, internautas dedicam a música "Tão", de Rita Lee, para Regina Duarte, encarnação da "boazinha, certinha, discreta, correta, modesta, decente, boa gente, cordata, sensata, risonha, normal".

A música me fez lembrar de uma frase de George Bernanos em que ele diz que não é a crueldade de uns ou a indignação e vingança de outros que fará com que nossa espécie desapareça da Terra, mas, sim, o aumento de pessoas obedientes e dóceis, isentas, boazinhas e normais, complacentes e coniventes com as injustiças do mundo.

Para finalizar, lamento o desmantelamento que o setor cultural vem sofrendo nos últimos governos e endosso o manifesto de repúdio às palavras e atitudes de Regina Duarte, assinado por artistas, intelectuais e produtores culturais. "Fazemos parte da maioria que não aceita os ataques reiterados à arte, à ciência e à imprensa, e que não admite a destruição do setor cultural ou qualquer ameaça à liberdade de expressão."

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, a cantora Rita Lee não gravou "Tão" em resposta a Regina Duarte

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.