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Pertencimento

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

28/04/2020 04h00

Pelejo com uma sensação de não pertencimento desde criança. Simplesmente não me sinto parte - de grupos, de lugares, da minha própria família, do mundo...

Desenho a representação dessa situação numa folha de papel. É um sentimento conhecido me perceber de fora, um pequeno ponto cinza no canto da folha, insignificante, longe de onde as coisas acontecem. Ocupando a maior parte do papel, que é a vida, circulam cores coloridas e vibrantes, em torno de um centro potente que irradia luz. Tudo acontece lá, nesse outro lugar, fora de mim.

Observo no desenho este movimento de vida vibrante e parece que há um olho em seu centro, me observando. Um olho laranja, que me olha de soslaio com um olhar penetrante. Parece desconfiar de mim… Mas ao mesmo tempo, na verdade, parece ter algum interesse ou curiosidade sobre mim…

De repente me conscientizo temporariamente que este olho, este centro de vida, está na realidade dentro de mim, onde tudo na verdade acontece.

Mas então, por que me sinto tão à parte? Tão desconectada, excluída, rejeitada?

O olho, este centro do furacão, girando e irradiando luz, olha para mim (o pontinho cinza lá no canto) e diz: o que você está fazendo aí? Me parece haver um certo tom de bronca em sua voz. Por que você está sozinha? Por que não se junta a nós? Você não é especial ou diferente de nós para se excluir dessa forma.

Respondo numa profunda tristeza: não consigo, não vejo espaço para mim aí.

O olho me diz com compaixão: só você pode encontrar o seu espaço e descobrir o seu lugar, mas ele é seu, você é bem vinda aqui. Você é o centro do seu próprio movimento.

Meus olhos se enchem de lágrimas ao me reconectar a mim mesma. Percebo que posso me sentir parte, dentro da minha própria sensação de não pertencimento.

Este foi um exercício que experimentei, unindo arte e Democracia Profunda, conceito desenvolvido por Arnold Mindell, criador da Psicologia Orientada por Processo (Process Work Psychology), a que tenho me dedicado a estudar.

A Democracia Profunda propõe a ideia de que todas as vozes e todas as partes de um sistema são importantes e necessárias para a integridade e plenitude do todo. Todas as nossas vozes internas, centrais e marginais, trazem importantes mensagens e sua integração é importante para nossa auto atualização, saúde e paz emocional, psicológica e mental. Da mesma forma, todas as vozes e perspectivas em um grupo, coletivo ou sistema social são necessárias para, ao se relacionarem umas com as outras, trazer a tona importantes informações para atualizar o sistema, que é vivo, em constante processo de transformação.

Quais vozes internas ou externas você tem marginalizado ou deixado de escutar? Se prestar atenção nelas, que informação importante têm para lhe dar neste momento?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.