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Rosana Jatobá

Descarbonizar é o melhor atalho para uma nova rota de desenvolvimento

Getty Images/iStockphoto/f9photos
Imagem: Getty Images/iStockphoto/f9photos
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

23/10/2020 12h28

O mantra é uma fórmula mística e ritual recitada repetidamente!

No caminho de transição para a economia verde, se entoa assim: "reduzir pela metade as emissões globais de gases de efeito estufa até 2030, e chegar a zero em meados do século". A descarbonização da economia é o rumo necessário para os países se protegerem dos impactos negativos das mudanças climáticas. Do contrário, dizem os sábios da consciência e da ciência, nada escapará à fúria da natureza.

Os alertas não são de hoje. Há décadas se fala que o planeta esquentaria se continuássemos a queimar combustíveis fósseis, lançando CO2 e outros gases de efeito estufa na atmosfera.

"Uma mudança brusca do carbono na atmosfera sempre foi incompatível com uma Terra saudável. É uma característica das 5 extinções em massa. Em eventos anteriores, foi preciso 1 milhão de anos de atividade vulcânica pra lançar carbono suficiente para desencadear uma catástrofe. Hoje em dia, nós queimamos petróleo e carvão, equivalentes a milhões de anos de organismos vivos ao mesmo tempo, tudo em menos de 200 anos.

A fatura já está sendo cobrada. Exemplo emblemático: O Ártico, ecossistema mais puro e distante do mundo caminha para o desastre. Mas nossa marca, nosso raio de destruição, nossa pegada, é global. Mudamos os fundamentos do mundo dos seres vivos. Se não pararmos de emitir carbono, o colapso não demora. Teremos mais e mais catástrofes, desde o derretimento do gelo até ondas de calor devastadoras e tempestades intensas", explica o ambientalista britânico David Attenborough.

O caminho de volta

Descarbonizar também é o melhor atalho para as nações entrarem em uma nova rota de desenvolvimento e crescimento econômico.

Não à toa, a urgência climática mobiliza um sem número de líderes empresariais e governamentais por meio da campanha Corrida para Zero dos Campeões do Clima de Alto Nível da ONU. A iniciativa global pede às cidades, empresas, investidores e sociedade civil que se comprometam a alcançar zero de emissões até 2050 e apresentem um plano factível antes da próxima Cúpula do Clima da ONU, em 2021.

Mas como seria este movimento de descarbonização? Um processo pelo qual a política e o comportamento precisariam mudar em todas as áreas, utilizando cinco tecnologias: energias renováveis, veículos elétricos, hidrogênio, captura e armazenamento de carbono (CCS) e biocombustíveis.

As emissões causadas pelas fábricas e veículos movidos a combustíveis fósseis teriam que ser drasticamente reduzidas, ficando o mais próximo possível de zero.

Melhorar a eficiência da produção de alimentos, diminuindo a perda e o desperdício; mudar as escolhas alimentares e interromper o desmatamento também têm um potencial significativo para baixar as emissões.

Os gases de efeito estufa restantes seriam equilibrados com uma quantidade equivalente de remoção de carbono. A remoção de CO2 da atmosfera seria necessária para compensar as emissões de setores nos quais é mais difícil chegar a zero emissões, como a aviação. Ela poderia ser alcançada por vários meios, incluindo mecanismos baseados na terra (como restauração de florestas e aumento da absorção de carbono pelo solo) e procedimentos tecnológicos (como captura direta de ar e armazenamento, ou mineralização).

Esta é uma obrigação de todos, um dever que não conhece fronteiras. Mas que vai exigir um esforço maior dos principais emissores, como os Estados Unidos, a União Europeia e a China, visto que as maiores economias desempenham um papel descomunal na determinação da trajetória das emissões globais.

Hoje, já temos vinte países ou regiões que adotaram metas de zero carbono por meio de lei ou outro documento governamental: Áustria, Butão, Costa Rica, Dinamarca, União Europeia, Fiji, Finlândia, França, Hungria, Islândia, Japão, Ilhas Marshall, Nova Zelândia, Noruega, Portugal, Cingapura, Eslovênia, Suécia, Suíça e Reino Unido.

A Unidade de Energia e Inteligência do Clima contabilizou até junho de 2020, 120 países que se comprometeram a trabalhar em metas de zero carbono por meio da Climate Ambition Alliance. Semana que vem eu explico a razão do interesse global por uma economia descarbonizada.

Se fôssemos entoar o mantra do mercado, ele seria assim: "Precisamos proteger nossos ativos futuros dos riscos climáticos!".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.