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Rosana Jatobá

Energia limpa precisa estar no centro da recuperação econômica

Getty Images/iStockphoto/f9photos
Imagem: Getty Images/iStockphoto/f9photos
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

31/07/2020 04h00

Ela vinha de vento em popa. A energia renovável apresentou um crescimento espetacular nas últimas duas décadas, criando novas indústrias globais e ajudando a evitar quantidades significativas de emissões de gases de efeito estufa. Se tornou um elemento fundamental da economia, alimentando quase 30% do uso global de eletricidade. É também um empregador significativo, além de ser uma fonte importante de novos investimentos e inovações tecnológicas. Relatório da ONU aponta que 78% da capacidade de geração adicionado globalmente em 2019 foi em energia eólica, solar, biomassa e resíduos, geotérmica e pequenas hidrelétricas. O investimento em energias renováveis, excluindo as grandes hidrelétricas, foi mais de três vezes o das novas usinas de combustíveis fósseis.

Reconhecida como vital para que o mundo cumpra suas metas climáticas e outros objetivos de desenvolvimento sustentável a longo prazo, a energia renovável desfrutava de promissoras projeções.

Em outubro de 2019, a AIE, Agência Internacional de Energia, previa que 2020 seria um ano recorde para adições de eletricidade renovável. As instalações globais de energia solar fotovoltaica e eólica foram definidas para superar os níveis de 2018 em mais de 20%. As políticas renováveis na China, União Européia, Estados Unidos e Índia deveriam impulsionar essa rápida expansão.

Mas o coronavírus impôs uma queda de 6% na demanda global de energia - sete vezes mais do que após a crise financeira global de 2008. E junto com os principais combustíveis como carvão, petróleo e gás, o mundo viu turbinas paralisadas e painéis solares debaixo de um tempo sombrio. E bem onde tudo começou: na China, que produz 70% dos painéis solares do mundo.

A energia limpa tomou um banho de água fria da Covid-19.

Nos três primeiros meses de 2020, o uso global de energia renovável chegou a aumentar cerca de 1,5% em relação ao primeiro trimestre de 2019. O número foi impulsionado por um aumento de cerca de 3% na geração de eletricidade renovável, após projetos de mais de 100 GW de energia solar fotovoltaica e cerca de 60 GW de energia eólica terem sido concluídos em 2019. Além disso, a disponibilidade eólica foi alta na Europa e nos Estados Unidos no primeiro trimestre deste ano.
Mas no cômputo geral do semestre, o tempo fechou.

Pela primeira vez em 40 anos, a instalação global de energia solar, eólica e outras energias renováveis foi menor que no ano anterior: houve uma redução de 13% nas instalações.

As vendas de veículos elétricos em todo o mundo também foram severamente impactadas. Com o preço do petróleo em colapso- lembremos que os preços do petróleo ficaram negativos pela primeira vez nos EUA no mês passado- os carros usados se tornaram muito mais baratos. Some-se a isso a alta taxa de desemprego, o que diminuiu drasticamente as expectativas de vendas de veículos elétricos em 2020. Estima-se um declínio global de 43% nas vendas de veículos elétricos este ano e muitos novos modelos elétricos das montadoras não são esperados até 2021.

Até quando vai durar a tempestade?

Tudo depende das estratégias dos governos. Se eles vão colocar as tecnologias de energia limpa - renováveis, eficiência, baterias, hidrogênio e captura de carbono - no centro de seus planos de recuperação econômica.

Há grandes desafios pela frente no setor de energia renovável: interrupções na cadeia de suprimentos que podem levar a atrasos na conclusão de projetos; o risco de não poder se beneficiar dos incentivos governamentais que terminam este ano; a provável diminuição do investimento devido à pressão nos orçamentos públicos e privados, combinada à incerteza sobre a demanda futura de eletricidade.

Mas, segundo especialistas, não há momento mais propício do que este para incrementar a demanda por energia limpa.

Primeiro, porque a pandemia reduziu a demanda por combustíveis fósseis- as emissões de carbono devem diminuir em quase 8% este ano- e evidenciou problemas de armazenamento e distribuição da energia suja.

Segundo, porque a energia gerada por combustíveis fósseis no mundo deverá atingir seu pico máximo em 2023. A partir daí, passará a cair e dar lugar a fontes renováveis. De acordo com a consultoria Carbon Tracker, a partir de 2030 as fontes renováveis superariam as fósseis, e em 2050, mais de 50% da demanda global passaria a ser atendida por fontes limpas.

Terceiro, porque as próprias petroleiras tem investido em fontes renováveis, como usinas eólicas em alto-mar.

É o caso de gigantes do setor, como a anglo-holandesa Shell, a norueguesa Statoil e a francesa Total.

Algumas das empresas já anunciaram inclusive o interesse de investir nesse segmento dentro do Brasil --onde o potencial eólico é grande. A Petrobras tem buscado iniciativas nesse sentido.

"A energia eólica e a solar são as alternativas mais baratas para a nova geração de eletricidade; e a pandemia e o colapso dos preços do petróleo não mudarão isso. O fechamento de usinas de carvão está se acelerando este ano, e a energia eólica e solar continuarão competitivas. Portanto, investir nessas áreas pode criar empregos, tornar as economias mais resilientes e direcionar o mundo para um futuro de energia mais limpo", afirma Fatih Birol, diretor executivo da AIE.

No Brasil, o momento é ainda mais auspicioso.

"A sobreoferta de energia, causada pelos impactos da pandemia, deve durar aproximadamente cinco anos e permitirá a adoção de medidas para tornar a matriz energética mais limpa, entre elas a antecipação da desativação do parque de geração a carvão", afirma o pesquisador da USP José Goldemberg.

A grande mudança em direção a fontes de eletricidade de baixo carbono, incluindo vento, energia solar fotovoltaica, energia hidrelétrica e nuclear, encontra ressonância nas grandes vozes mundiais.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, convocou todos os líderes a escolherem o caminho da energia limpa em seus planos de recuperação econômica pós-Covid-19, estimulando-os a proibirem o carvão e a apoiarem as energias renováveis. Ele citou exemplos positivos, como os planos da União Europeia e da Coreia do Sul, e a escolha da Nigéria de reformar sua estrutura de subsídios do setor de energia fóssil.

No mês passado, o governo dinamarquês promoveu conversas nas quais ministros e líderes empresariais de todo o mundo discutiram sobre tornar a energia sustentável um componente essencial da recuperação econômica global.

Num contraponto a politica energética de Donald Trump, o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Joe Binden, divulgou um plano de investimento de US$ 2 trilhões para o combate às mudanças climáticas com investimentos em energia limpa nos setores de infraestrutura, transporte e construção. A meta é que os recursos aportados nos próximos quatro anos impulsionem o país para zerar as emissões na geração de energia nos próximos 15 anos.

O Ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque, já se pronunciou sobre as ações para garantir segurança energética e sustentável no país no período pós pandemia. "Nossos planos decenal e de trinta anos estão sendo adaptados aos efeitos da pandemia e serão tornados públicos no final deste mês de julho. Elaboramos planos para a modernização dos ativos de transmissão, que deverão atrair investimentos significativos nos próximos anos. Desenhamos novos arcabouços legais e regulatórios para a modernização do setor de energia e o novo mercado de gás. Estamos finalizando um modelo de negócios para ser apresentado a potenciais parceiros para a construção de novas usinas nucleares previstas para os próximos anos".

O governo brasileiro decidiu incluir diversos equipamentos de energia solar em uma lista de bens de capital cujos impostos de importação estão zerados até o final de 2021. A medida deve ajudar a impulsionar negócios, em um momento em que a desvalorização do real frente ao dólar aumenta os custos de componentes para a geração com a tecnologia.

Os especialistas afirmam que a energia limpa será a única a crescer este ano, em torno 1%. Em particular, a demanda por eletricidade renovável deverá crescer 5% em 2020, com a energia hidrelétrica desempenhando um papel cada vez mais importante.

A única fonte renovável de energia que a AIE não espera crescer este ano são os biocombustíveis, devido à desaceleração do transporte público. E, no pior dos casos, algumas usinas de energia verde, que dependem da coleta de resíduos de alimentos orgânicos, podem ter que desligar.

O esforço do nosso governo pode mais que dobrar a participação da energia eólica e solar na matriz energética do Brasil até 2026, para 18%, segundo a EPE, Empresa de Pesquisa Energética.

O mercado e os investidores já estão convencidos da confiabilidade e competitividade da energia renovável.

Enquanto a Bovespa caía para o seu pior desempenho em meio a uma retirada de risco ligada ao coronavírus, perdendo um terço de seu valor no mesmo período e quase metade em dólar, a fabricante de motores elétricos e turbinas eólicas Weg SA foi a campeã do índice. As ações da Weg subiram mais de 10% até agora em 2020, recuperando-se de fortes perdas em março.

A pandemia de coronavírus ainda representa uma ameaça significativa para a implantação oportuna de fontes renováveis rotem da crise com um impulso renovado e desempenhem um papel importante na recuperação econômica global. Desta forma, os bons ventos voltarão a soprar no setor energético.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Rosana Jatobá