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Dinheiro que dá em árvore

Forças Armadas em ação conjunta com o Ibama na Amazônia - Arquivo Pessoal
Forças Armadas em ação conjunta com o Ibama na Amazônia Imagem: Arquivo Pessoal
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

14/07/2020 04h00

Não se fala de outra coisa nos corredores do Palácio do Planalto. Como o Brasil vai se livrar da pecha recém-conquistada de vilão do meio ambiente?

A má fama corre o mundo, na mesma velocidade das notícias sobre genocídio dos povos indígenas e aumento das queimadas e do desmatamento. No acumulado do semestre, a devastação da Amazônia atingiu 3.069,57 km2, um crescimento de 25% em comparação ao mesmo período de 2019. A região teve seu 14º mês seguido de aumento de desmate.

As denúncias de desmonte da política ambiental brasileira não são de hoje. A gota d'água partiu da reunião ministerial de 22 de abril, quando o ministro Ricardo Salles disse ao presidente Jair Bolsonaro que "precisa haver um esforço (...) enquanto estamos nesse período de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, focada na Covid-19, e ir passando a boiada e mudando o regramento e simplificando normas".

Pegou muito mal. A ponto de o Ministério Público Federal acusar Salles de "cometer improbidade administrativa em série de atos, omissões e discursos que caracterizariam conduta intencional com o objetivo de fragilizar a atuação estatal na proteção do meio ambiente e favorecer interesses que não têm qualquer relação com a finalidade da pasta".

A reação também veio de executivos de empresas exportadoras e multinacionais brasileiras, que estariam na defensiva em suas estratégias de negócios no exterior, em razão da enorme pressão em torno das questões ambientais. E até indústrias com reconhecimento global por práticas sustentáveis estão sendo indagadas por clientes e investidores lá fora. Passar vergonha é o de menos.

"O risco maior é o de ver a má reputação do Brasil podendo ser usada por países protecionistas, interessados em barrar a entrada de produtos brasileiros. Caso da celulose, que é altamente competitiva no mercado internacional", diz Marcelo Bacci, diretor executivo de Finanças da Suzano.

Se é desculpa ou não para protecionismo, o fato é que a Cofco, líder em processamento de alimentos na China prometeu rastrear toda soja comprada do Brasil até 2023, com o objetivo de se certificar de que grãos não venham de áreas de desmatamento irregular. Caso contrário, negócio desfeito.

Aliás, muitos empresários já afirmam ser vítimas de um bloqueio silencioso, um boicote velado aos produtos nacionais. Outros lidam com o medo de não poder assinar acordos futuros com importantes mercados. Empresas oriundas de países que compactuam com a devastação da floresta não têm chance mesmo de fechar negócios com países da União Europeia, por exemplo.

O mercado não parece disposto a ver o circo pegar fogo. Partiu para cima do governo exigindo medidas para salvar nossa imagem verde, que um dia já foi tão reverenciada.

Líderes de 47 companhias nacionais e estrangeiras de diversos setores, e mais cinco entidades de classe, assinaram um manifesto que pede ações de combate ao desmatamento e expõe a "preocupação com o impacto nos negócios da atual percepção negativa da imagem do Brasil no exterior, em relação às questões socioambientais na Amazônia".

E a pressão do capital já faz efeito! Em poucos dias, criou-se uma agenda positiva para mostrar serviço. Horas depois do manifesto, o presidente Jair Bolsonaro usou as redes sociais para comunicar as ações do Exercito na Amazônia legal e informar que a AGU (Advocacia geral da União) bloqueou R$ 140 milhões em bens de desmatadores.

O Ministério da agricultura começou a lançar vídeos para mostrar como o setor cuida do meio ambiente. O vice-presidente Hamilton Mourão, que preside o Conselho amazônico, foi conversar com investidores estrangeiros, a propósito da carta enviada a embaixadas brasileiras por 29 Fundos. Prestou contas. Anunciou medidas do Plano nacional de combate ao desmatamento, incluindo o decreto que proíbe queimadas na região amazônica pelos próximos 120 dias.

O Ministro Ricardo Salles anunciou o programa Floresta +, que conta com recursos no valor de R$ 500 milhões para pagamento por serviços ambientais. A ideia é remunerar quem está promovendo ações de conservação de florestas e trabalhando no combate ao desmatamento ilegal.

O Ministro Paulo Guedes, em evento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fez um discurso enfático de compromisso com a preservação da Amazônia, ressaltando que o governo não aceitará o desmatamento ilegal e a exploração ilegal de recursos.

"O Brasil não pode ignorar a chamada Interdependência reputacional, que significa que ao devastar a Amazônia, é o conjunto da economia brasileira no exterior que fica comprometido. O desmatamento não prejudica só o agronegócio ou o comércio do que sai da Amazônia. A economia brasileira como um todo passa a ser vista com maus olhos", afirma o cientista político e professor da USP, Ricardo Abramovay.

A questão ambiental ainda promete muitas discussões em Brasília. Que os projetos saiam do papel. Porque quando o mercado fala mais alto, a lábia não convence e o melhor a fazer é agir e não bater boca.

Rosana Jatobá