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Queda da poluição mostra como nossa saúde depende de ecossistemas saudáveis

Getty Imagens
Imagem: Getty Imagens
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

26/05/2020 04h00

Se a pandemia nos sufoca, deixa o meio ambiente respirar aliviado. Desde 2006 não víamos imagens tão alentadoras do céu. A poluição por dióxido de carbono (CO2), o principal causador das mudanças do clima, caiu em media 17% no mês de abril, em comparação com abril do ano passado. Voltamos ao patamar de 14 anos atrás... No Brasil, a redução das emissões de poluentes foi até maior, de 25%. No estado de Nova York, atingiu 32,7%. Na Europa, a queda foi de 27%.

O isolamento social reduziu a circulação de pessoas e de veículos, desacelerou as indústrias e minguou a demanda por energia fóssil. Entre janeiro e março, a demanda global por carvão caiu 8%, e a queda com relação ao petróleo foi de 5%.

De acordo com o Global Carbon Project, a redução da poluição ao fim deste ano deve ficar entre 7% e 8%, se a quarentena acabar em junho. Se o confinamento durar o ano inteiro, o índice anual pode ser de até 13%.

São índices modestos e insuficientes para frear os problemas causados pelas mudanças climáticas. Mas reforçam o recado da natureza: a saúde humana depende de ecossistemas saudáveis. E tudo está interligado.

As mudanças climáticas provocadas pelas emissões de poluentes aceleram a perda de habitat de muitas espécies, fazem com que a vida selvagem migre para novos lugares, aumentando o risco de surgimento de novas doenças infecciosas, como a Covid-19. Por outro lado, a poluição do ar fragiliza ainda mais o paciente e aumenta a tragédia humana, já que as partículas de poluentes atuam como transporte de patógenos, disseminando os vírus por grandes distâncias.

Se pretendemos restringir o surgimento de novas pandemias, precisamos simplesmente cessar nossa exploração e degradação do mundo natural e reduzir urgentemente nossas emissões de carbono.

A tarefa é desafiadora, mas já está no horizonte. E a pandemia parece acelerar a transição para uma economia verde.
Em razão do crescimento impressionante das fontes renováveis, baixos retornos e riscos climáticos vêm repelindo os investidores há algum tempo.

O Carbon Tracker, um think-tank internacional cujo objetivo é alinhar os mercados de capitais aos objetivos das políticas climáticas, previu, em 2018, que as emissões de combustíveis fósseis atingiriam o pico em 2025. Com o coronavirus, o pico das emissões de dióxido de carbono pode estar mais próximo, já em 2023, segundo Michael Liebreich, que fundou a BloombergNEF, um grupo que reúne dados sobre energia.

"O futuro do petróleo parece muito mais sombrio diante da pandemia do coronavírus. A humanidade questiona formas de deslocamento, rotas de linhas aéreas, intervenção do governo, gastos de capital e recuperação de preços. As pessoas estão criando novas conexões, fazendo compras localmente, trabalhando em casa e limitando o consumo ao que é necessário. Só a adesão permanente ao home office, por exemplo, pode representar redução drástica do uso do transporte, que hoje é responsável por cerca de 8% da demanda de petróleo".

A Covid-19 tem o potencial não apenas de reprimir a demanda de energia suja, mas também de alavancar a limpa. A doença representa um choque que atinge um setor já em processo de mudança. O custo das fontes renováveis já é menor do que o das usinas de combustíveis fósseis em grande parte do mundo. Veículos elétricos, por exemplo, estão prontos para o mercado de massa.

Apesar de algumas interrupções nas cadeias de suprimentos, a renovável será a única fonte de energia que provavelmente deve apontar um crescimento da demanda até o final de 2020, de acordo com um estudo da AIE (Agência Internacional de Energia).

"Até agora, a energia renovável tem sido a fonte de energia mais resiliente às medidas de bloqueio da Covid-19. No primeiro trimestre de 2020, por exemplo, o uso global das renováveis foi 1,5% maior que no primeiro trimestre de 2019. Esperamos que as energias renováveis geração de energia na América pela primeira vez este ano".

Neste cenário de expansão de fontes renováveis, a covid-19 pode estimular indivíduos, empresas, investidores e governos a tomarem decisões que acelerem o declínio dos combustíveis fósseis.

Há muitas oportunidades para fazer mudanças reais, duráveis e mais resistentes a crises futuras, implementando pacotes de estímulo econômico que também ajudem a cumprir as metas climáticas, especialmente a mobilidade, responsável por metade da redução de emissões durante o confinamento.

Não basta olhar para cima e esperar que a solução caia do céu. Ele está mais limpo e claro. Mas pode se tornar nebuloso a qualquer momento. Aí o sufoco pode ser bem maior.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.