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A moda pode fazer parte deste processo de reinvenção do futuro

Coco Chanel - Divulgação
Coco Chanel Imagem: Divulgação
Rosana Jatobá

Rosana Jatobá é advogada e jornalista, com mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela USP. Foi repórter e apresentadora de televisão, tendo trabalhado na Band, na Globo e na RedeTV!. Foi eleita a melhor jornalista de sustentabilidade em 2013 e em 2016 e venceu o Prêmio Chico Mendes como Personalidade Ambiental do ano de 2014. Atualmente é âncora na rádio CBN e comanda o portal Universo Jatobá. Também é autora do livro de crônicas "Questão de Pele" e da "Coleção Jatobá para Ecoalfabetizaçao e Atitudes Sustentáveis para Leigos".

14/05/2020 04h00

A grande dama da moda revolucionou, não apenas porque libertou a mulher dos trajes desconfortáveis e rígidos do fim do século 19. Mademoiselle Chanel soube entender o zeitgeist — ou seja, o espírito do tempo — quando afirmou: "A moda não é algo presente apenas nas roupas. A moda está no céu, nas ruas, a moda tem a ver com ideias, a forma como vivemos, o que está acontecendo."

Se Coco Chanel estivesse viva assistiria a uma profunda mudança na indústria da moda atual, marcado pela "era do fast fashion" e pelo consumo excessivo.

Está em curso uma revolução lastreada pelo fenômeno da Sustentabilidade e acelerada pela pandemia do coronavírus.

A segunda indústria mais poluidora do mundo, responsável por 8% das emissões globais de gases de efeito estufa e acusada de contratar força de trabalho irregular, já questiona os seus métodos há mais de uma década. E o consumidor é o propulsor da transformação da cadeia, especialmente os mais jovens, da chamada Geração Z e os Millennials. Segundo analistas da Bloomberg Intelligence, eles estariam dispostos a pagar de 50% a 100% a mais por produtos ecologicamente corretos.

Um Importante passo já foi dado por 33 grandes fornecedoras de fast fashion, que assinaram o acordo da Global Fashion Agenda, no qual se comprometem com a sustentabilidade. A Zara, por exemplo, quer tornar desde os materiais até a sua infraestrutura totalmente sustentáveis até 2025. O objetivo é usar apenas tecidos reciclados ou orgânicos de algodão, poliéster e linho. Já está inclusive recebendo roupas para reciclagem. A empresa também almeja que todos os seus escritórios e lojas sejam ecoeficientes. A longo prazo, o plano é que 80% das atividades da companhia, incluindo lojas, centros logísticos e escritórios usem energia renovável.

O mercado também entendeu as preocupações ambientais, sociais e de governança dos investidores e fez vários lançamentos de fundos e fluxos direcionados à estratégia sustentável. A alocação de ações para os chamados fundos ESG aumentou muito, e investidores passaram a apostar em títulos verdes na busca por retornos. O apetite pela sustentabilidade nos negócios se explica: a indústria da moda pode gerar cerca de 110 bilhões de euros (123 bilhões de dólares) em valor, se abordar as principais questões ambientais relacionadas à água, energia, produtos químicos e resíduos, afirma o relatório divulgado pelo banco Barclays, "Green is the new black".

Há também diretrizes claras para a adoção de boas práticas de responsabilidade social e ambiental. O relatório "O Futuro da Sustentabilidade na Indústria da Moda", divulgado em novembro de 2019, aponta 14 estratégias para torná-la sustentável no prazo de 16 anos.

Mas o coronavírus parece que veio para acelerar o processo de reestruturação do mundo fashion.

Com a economia em recessão, os especialistas preconizam uma mudança real na dinâmica da produção e do consumo de moda.
A começar pelo calendário de lançamentos que já foi alterado pela quarentena e deve permanecer claudicante no pós-pandemia pela escassez de recursos. Desfiles e temporadas de moda foram completamente apagados da primeira metade do calendário de 2020 e os desfiles de setembro ainda estão pendentes. O sistema atual de fabricar seguindo estações vai dar lugar a pequenas coleções, sob pena de acúmulo de estoque. Isso enxugará processos produtivos e vai demandar uma adequação dos canais de distribuição.

Aliás, as plataformas tecnológicas especializadas em moda já experimentam um aumento na demanda. Algumas tecnologias que demoraram a se estabelecer, como desfiles virtuais e showrooms digitais, "livestream shopping" e as mais recentes ferramentas de design 3D, agora estão sendo utilizadas para fazer negócios.

Os consumidores vão entoar cada vez mais o mantra "compre menos, mas compre melhor" que os ambientalistas têm defendido na última década. As equipes de estilo terão pela frente o grande desafio de criar produtos que traduzam uma lógica de consumo mais consciente. De acordo com uma pesquisa da McKinsey, 15% dos consumidores nos EUA e na Europa esperam comprar roupas mais ecologicamente e socialmente sustentáveis.

"Para além do medo, temos a sensação de que as pessoas estão em busca de algo que tenha um pouco mais de substância. Quando você vê imagens de Veneza com canais limpos, isso faz você questionar tudo. Temos que reinventar o futuro, e a moda pode fazer parte deste processo. A vestimenta precisa ser ressignificada, ela se transforma em um objeto de resistência, de autocuidado e de conexão com a nossa essência", analisa a jornalista Valéria Said, professora de Ética e pesquisadora em Moda e Política.

Em suma, consumidores afetados por uma recessão global terão mais consciência do que nunca e poderão considerar a sustentabilidade em suas decisões de compra ainda mais do que antes. A tendência é pela busca de peças de "investimento": itens minimalistas e atemporais. Como dizia Gabrielle Coco Chanel: "Uma mulher precisa de apenas duas coisas na vida: um vestido preto e um homem que a ame".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.