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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para além das eleições, incivilidade bolsonarista pede combate diário

Capa do livro "Lula, volume 1: Biografia" - Reprodução
Capa do livro "Lula, volume 1: Biografia" Imagem: Reprodução

10/01/2022 06h00

Na iminência de um voo longo e uma semana em um hotel cheio de piscinas, sonho com as crianças entretidas e, por consequência, na abertura de um tempo para a leitura. Estou na livraria do aeroporto e pergunto à atendente por "Lula: Biografia vol. 1", de Fernando Morais. Uma senhora que passava a meu lado ouve o pedido. Num nível considerável de decibéis, sente-se à vontade para proclamar, no meio do estabelecimento: "Não vende para ele, não!".

Silenciei, mas não deveria tê-lo feito. Já no ar e de livro aberto, fiquei repassando mentalmente respostas possíveis para a ocasião. "Vem cá, minha senhora, por acaso eu a conheço? Suponho que não. O que lhe dá o direito de bisbilhotar numa conversa privada e emitir opiniões não solicitadas sobre ela? Por acaso o fato de eu ler uma biografia do Lula diz algo sobre quem sou como eleitor, ou mais, como pessoa? O que te importa tudo isso? Há um desejo irrefreável de comunicação pública a ponto de tê-la levado ao anúncio, em alto e bom som, de qual deveria ser a conduta da vendedora?"

Há poucas dúvidas de que esse comportamento de "falo o que me der na telha" é uma novidade social. Sob o falso disfarce da "liberdade de expressão" e da "autenticidade" se esconde um variado arsenal de incivilidades. O termo, ensina a professora Telma Vinha, da Unicamp, designa "ações que ferem o bom comportamento social, perturbam o ambiente e minam as relações dependendo da frequência e intensidade com que ocorrem". Seu oposto é a polidez do "por favor", "desculpe", "compreendo o que quer dizer, mas penso diferente de você", expressões que tornam as relações mais leves, agradáveis e acolhedoras. Nessa lista também se encaixa a prudente atitude de manter sua boca fechada quando a conversa não lhe disser respeito.

É possível parear a nova onda de grosseria com a ascensão dos movimentos populistas de extrema direita. Na biografia de Lula, Fernando Morais traz um exemplo eloquente do cavalo de pau representado pela entrada de Steve Bannon na campanha de Donald Trump. Entronizado estrategista-chefe da candidatura, Bannon vaticinou que o dublê de empresário e apresentador de TV perderia se não dissesse a "verdade". Segundo Morais:

"O que Bannon defendia como sendo 'a Verdade' revelou-se uma tática infalível: por que não ser honestos? Por que não dizer aos americanos o que de fato pensavam e defendiam? Por que ter vergonha de dizer ao povo que nós somos supremacistas brancos, que vamos construir um muro separando os Estados Unidos do México para impedir a entrada dos hispanos esfomeados que invadem nosso país aos milhares, como ratos, todos os dias, clandestinamente, para roubar os empregos dos trabalhadores ianques? Por que não dizer, com a mais absoluta clareza, que eram contra a entrada nos Estados Unidos de famílias islamitas que escondem terroristas como os que derrubaram as Torres Gêmeas no Onze de Setembro?"

Como se aprende basicamente pelo exemplo, a eleição de Trump baixou o elevado custo social de se dizer e defender barbaridades, muitas vezes criminosas, em público. Rezando pela cartilha trumpista, Bolsonaro chegou à presidência defendendo - recorro novamente a Morais - "inequivocamente o estupro", tratando "os quilombolas como animais que deveriam ser pesados em arrobas", investindo contra os movimentos LGBTQIA+, chamando os adversários de "comunistas pedófilos" e propondo que "mereciam ser fuzilados por querer transformar o Brasil numa Cuba, numa Venezuela".

A história se repetiu de forma ainda mais intensa. Em seu livro "Tempestade Perfeita", o jornalista Cesar Calejon recupera o termo sindemia, cunhado originalmente nos anos 1990 pelo médico e antropólogo americano Merrill Singer, para descrever a sinistra interação entre o bolsonarismo e a pandemia de covid-19. Seus vetores: negacionismo presidencial, ausência do federalismo cooperativo, gestão errática e criminosa no Ministério da Saúde, subnotificação de casos e morosidade na compra de testes e vacinas.

Como resultado, as incivilidades mudaram de patamar e se tornaram uma ameaça mortal. O combate à imunização de crianças contra o coronavírus é apenas o capítulo mais recente de ações e omissões de Bolsonaro e bolsonaristas. Que Bolsonaro seja varrido da história pelas eleições e julgado pelos crimes que cometeu é o mínimo que se espera. Lula vem fazendo movimentos corretos no sentido da construção de uma ampla aliança política, mas é precipitado e perigoso o clima de já ganhou, como comenta o articulista José Luiz Portella. Calejon concorda: "O bolsonarismo desidratou profundamente, sobretudo por conta da gestão genocida da pandemia. Mas em ciências sociais é impossível fazer esse exercício de futurologia, simplesmente porque as condições históricas e culturais do que acontecerá em outubro de 2022 ainda não estão dadas."

O certo é que o bolsonarismo seguirá vivo, capilarizado e gritando "não vende para ele" em livrarias de aeroportos. Ainda que derrotado nas urnas -- o que, repita-se, está longe de ser uma certeza --, continuará entre nós, uma vez que seus comportamentos e métodos de ação se encontram espalhados pela sociedade. Calejon: "O bolsonarismo é a expressão mais aguda de uma racionalidade neoliberal que, para muito além de determinar apenas práticas macroeconômicas a serem adotadas pelo governo, orienta também a conduta e as expectativas dos próprios governados."

Será preciso paciência e trabalho para confinar novamente o fascismo a um estado de "latência envergonhada", como bem define Marcelo Coelho. O articulista defende que derrotá-lo exigirá "conflitos que, em geral, o país faz tudo para evitar". É possível pensar nessas disputas em nível macropolítico ou de uma perspectiva mais cotidiana. Ocupo-me dessa última, refletindo que ficar calado na livraria não foi o melhor caminho.

Entre fugir do confronto e revidar na mesma agressiva moeda, há um virtuoso caminho do meio que primeiro precisamos aprender para depois poder ensinar. Encontram-se adormecidas as estratégias de comunicação não violenta, que permitam às pessoas expressar pontos de vista conflitantes sem — voltamos ao ponto inicial do artigo — elevada carga de incivilidade. Com sua gritaria grosseira, a comunicação nada empática das redes sociais tornou-se padrão ouro das conversas do dia a dia.

A superação do modo de ser bolsonarista nos pede que indiquemos uma outra comunicação. Que não substitua a opressão atual por outra em sinal invertido, e que não confunda o livre arbítrio com a liberdade de ofender e praticar crimes. Suspeito que o caminho para sua construção esteja mais no ambiente offline, de carne e osso, de expressões e emoções visíveis, do que na impessoalidade do meio digital. Quanto a esse espaço, é preciso regulá-lo. A história recente mostra que quem se beneficia dessa "terra sem lei" são os atores que operam sem qualquer trava ética.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL