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Rodrigo Ratier

REPORTAGEM

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Centenário de Paulo Freire reduziu incompreensões sobre ele

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Imagem: Reprodução

27/12/2021 12h57

Comunista, doutrinador, o grande responsável pelo suposto fracasso do ensino público. Em sua busca nunca completa de pessoas para odiar, a extrema-direita elegeu Paulo Freire (1921-1997) como saco de pancadas preferencial quanto aos problemas seculares da educação brasileira. "São polêmicas desnecessárias e absolutamente sem conteúdo", afirma Claudiney Ferreira, gerente do núcleo de audiovisual e literatura do Itaú Cultural. A entidade é responsável pela Ocupação Paulo Freire, em cartaz até 30 de janeiro em São Paulo (Av. Paulista, 149). Claudiney completa: "As críticas fazem parte de uma estratégia política, e resultam da falta de leitura de sua trajetória e de seus escritos. Ou de uma leitura enviesada, que transforma exceções em regras."

Para quem estivesse disposto a escutar, o centenário do educador foi ocasião para esclarecer diversas incompreensões sobre sua obra. A começar pela "acusação" de comunismo, uma constante em falas de figuras como o presidente Jair Bolsonaro ou o ex-ministro da educação Abraham Weintraub. Claudiney cita a experiência pioneira de alfabetização em Angicos (PE), em 1963, como um contraexemplo visível. "Freire organizou tudo sendo diretor do Serviço Social da Indústria (Sesi) de Pernambuco. Não consta que seja uma organização comunista", diverte-se. A curadora da Ocupação, Gleyce Kelly Heitor, também recorre à lendária ação no interior pernambucano como evidência de que o educador sempre se distanciou da ideia de "doutrinação" na educação. "Os objetivos de Angicos eram ligados ao desenvolvimentismo - que os trabalhadores tivessem autonomia de leitura, que pudessem colaborar com a educação dos filhos. A narrativa de que a meta era a preparação para a luta armada é posterior - e falsa."

Ainda assim, em parte do debate público Freire passou a ser responsabilizado pelos graves problemas da educação brasileira. A leitura já começa torta porque atribui ao pernambucano uma importância que ele nunca teve na política educacional. "O pensamento de Freire tem influência filosófica, além de 'eldorados' que trazem um respiro do que seria essa educação experimental. Mas num país como o Brasil — enorme, com realidades e contextos tão distintos —, nunca houve uma hegemonia paulofreireana", diz Gleyce.

"A culpa da educação brasileira é do Freire? Não tem sentido algum!", afirma Claudiney. "É a história da casa de ferreiro, espeto de pau: ele é criticado por aqui, mas é o brasileiro mais estudado no mundo. É mais fácil culpá-lo do que atacar a concentração de renda, a tradição de educação colonialista e os níveis baixíssimos de investimento."

Nesse sentido, não é possível ver no educador uma postura neutra. Gleyce afirma que Freire se identificava como de esquerda, mas que propunha a transformação por dentro das estruturas, pelas vias da luta social e das políticas públicas. "Se estivesse aqui, certamente se oporia à política de morte e desigualdade que esse governo propõe. Trata-se de um projeto de inspiração fascista que exige antagonistas. Para eles, Paulo Freire é um antagonista na educação."

Claudiney aposta que, se fosse vivo, Freire não se incomodaria com as críticas, mesmo as mais toscas. "Ele era um homem do debate. Ocorre que os detratores de hoje não o leram". Ao contrário do que se temia, os 100 anos de seu nascimento suscitaram apenas homenagens — não houve notícia de protesto. "A repercussão foi muito positiva. Tanto que prorrogamos a exposição", diz Claudiney. "Foi uma chance de vencer as fake news e apresentar Freire como ele é: pai, professor, patriota, regionalista, orgulhoso de ser pernambucano. Em resumo, um intelectual multifacetado", finaliza Gleyce.