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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Da agricultura à saúde: a influência de Paulo Freire muito além da educação

Evento Ocupação Paulo Freire está em cartaz até 30 de janeiro no Itaú Cultural - Divulgação/Itaú Cultural
Evento Ocupação Paulo Freire está em cartaz até 30 de janeiro no Itaú Cultural Imagem: Divulgação/Itaú Cultural

16/12/2021 06h00

No ano em que se celebra o centenário de Paulo Freire (1921-1997), ainda é possível aprender alguma coisa nova com a obra do educador pernambucano? Um evento da Ocupação Paulo Freire, em cartaz até 30 de janeiro no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149, São Paulo), se dedicou a examinar o legado do patrono da educação brasileira. Com curadoria da pesquisadora Gleyce Kelly Heitor, os nove encontros de "Quartas com Paulo Freire" exploraram a atualidade do pensamento freireano para concluir que seu prestigio vai muito além da educação. "Encontramos influência em práticas políticas e artísticas, metodologias na saúde, acolhimento a migrantes e até agroecologia", afirma Gleyce.

Em comum, os exemplos de áreas tão diferentes são guiados pela perspectiva da educação como prática democrática. Trabalham a horizontalidade do conhecimento e concebem os saberes populares como importantes para a constituição da aprendizagem. "Parte-se da ideia de que educação se faz em relação, a partir de processos de escuta", diz Gleyce. A premissa vale tanto para a formação em agroecologia não exploratória de recursos naturais quanto para o acolhimento de mães e filhas de imigrantes em Berlim. Para que adultos e crianças consigam se apropriar de um vocabulário mínimo do alemão que lhes permita o reconhecimento de seus direitos, trabalha-se com palavras geradoras - termos que fazem parte da realidade de um determinado grupo, em vez de uma lista padrão apresentada por cartilhas. No caso da formação de agentes de saúde, enfoca-se o respeito aos saberes populares, para que seja mais efetiva a articulação com os saberes científicos.

"Do ponto de vista de Freire, é necessário abrir mão da hierarquia de saberes. Todos são importantes do ponto de vista do conhecimento", afirma Gleyce. Isso se vivencia, por exemplo, na conversa entre o agrônomo e o agricultor. Esse último faz uma leitura do clima que muitas vezes é válida, mas não está fundamentada no saber que se aprende na faculdade. "O desafio consiste em estabelecer o diálogo entre eles", diz.

Faz sentido esse transbordamento do pensamento freireano para além da educação. "Em uma de nossas mesas de diálogo, Flávio Brayner, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), classificou Freire como um dos intérpretes do Brasil. Diante dos outros, que traziam a economia, a sociologia, a antropologia, ele se singulariza por inserir a dimensão da educação como uma chaves para o entendimento do país", diz Gleyce. Vindo de uma Recife em que o analfabetismo chegava a 80% na década de 1960, Freire apresenta na educação o caminho para a superação da desigualdade e da pobreza.

Seu pensamento ultrapassa as questões pedagógicas. A ocupação traz o caso de Angicos, cidade no Rio Grande do Norte que em 1963 sediou a alfabetização, num intervalo de 40 horas, cerca de 300 pessoas. "A experiência foi sistematizada e deu origem a um programa pedagógico para pensar o processo de alfabetização de forma integral", afirma Gleyce. Ela cita a ficha de anamnese (entrevista sobre o histórico de saúde) como um dos indicativos de uma visão mais ampla da educação. "Não haveria para Freire a alfabetização se a pessoa não estivesse bem de saúde. Como vai aprender se não tem o que comer? Por isso, sua equipe coletava dados de nutrição, socioeconômicos, de sonhos e de projetos de futuro".

É na trilha da educação para a emancipação que a pedagogia freireana alimenta atividades em diversas áreas. "O próprio Freire dizia que não queria seguidores, queria pessoas que o relessem, o reinterpretassem. Acho que ficaria satisfeito com tantas iniciativas", finaliza Gleyce.