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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Contra o fracasso escolar, menos heroísmo, mais ação coletiva na escola

Série Trajetórias Escolares vai ao ar no canal Futura todas as segundas-feiras, às 23h - Reprodução
Série Trajetórias Escolares vai ao ar no canal Futura todas as segundas-feiras, às 23h Imagem: Reprodução

22/11/2021 06h00

Estudante em Vila Velha (ES), Endryo Matheus Castilho precisou cuidar da mãe doente desde os 9 anos. "Acordava às 3 da manhã para dar banho nela e levar para a hemodiálise. Era responsabilidade na escola e em casa". Na 3ª série, reprovou pela primeira vez. Era o início de uma série de acidentes em sua vida escolar, que culminaram com uma chegada ao Ensino Médio em situação de grande defasagem idade-série — quando o aluno é bem mais velho do que a idade esperada para a etapa de ensino.

Na matrícula em uma escola pública de tempo integral no Espírito Santo, o pai sentenciou à coordenadora: "Ele tem de se esforçar bastante". A educadora respondeu: "Eu sei que vai. Ele é um menino bom."

"Como assim?", espantou-se o garoto. "A pessoa nem me conhece e sabe que eu sou bom? Não é possível." O reforço na autoestima não era por acaso. Integrava uma ação de acolhimento da equipe escolar, etapa de um projeto pedagógico mais amplo centrado no projeto de vida do estudante. "Ele ou aprende ou reaprende a sonhar. Tudo começa pelo sonho", explica a coordenadora Laurice Marinho Sardemberg. "A escola despertou a confiança em mim", confirma Endryo.

O caso faz parte da série Trajetórias Escolares e exemplifica bem o espírito da produção conjunta entre Unicef e Canal Futura. As histórias de adolescentes e jovens em vulnerabilidade que, mesmo diante dos obstáculos, continuam os estudos não são contadas pela ótica da motivação individual. Essa estratégia narrativa é figurinha fácil nos "casos inspiradores" da educação, que quase sempre se apoiam em trajetórias que romantizam a realidade. Com raras exceções, não servem como exemplos generalizáveis no combate ao fracasso escolar — materializado em problemas como dificuldades de aprendizagem, repetência, evasão e abandono.

Se há "heróis" na série, eles são menos tangíveis: a gestão escolar atenta, as políticas públicas bem desenhadas, as mudanças curriculares que aproximam o ensino dos interesses dos alunos. "Há um conjunto de experiências Brasil afora que merece ser retratado", afirma Julia Ribeiro, oficial de Educação do Unicef no Brasil. "Elas se dedicam a um perfil de estudante 'invisível', negro, pobre e periférico, que passa pela escola sem aprender e acaba abandonando."

São várias as razões que podem levar à evasão: gravidez na adolescência, problemas financeiros ou familiares, falta de sentido na aprendizagem. Mesmo que os motivos não estejam na escola, ela sempre pode atuar. A política de acolhimento vivenciada por Endryo é um exemplo de enfrentamento a uma dificuldade externa. Depois do momento inicial, ela pode se desdobrar em uma proposta que promova maior engajamento com os estudos. Escolas de tempo integral no Espírito Santo oferecem uma disciplina chamada Projeto de Vida. Foi o que ajudou o estudante a tecer planos, pensar em metas atingíveis e entender como a escola poderia auxiliá-lo.

O mapeamento do Unicef identifica boas práticas que vão do aumento do tempo na escola aos currículos mais diversificados, construídos em parceria com os alunos; das atividades pedagógicas orientadas para o respeito às diferenças a ações que abordem dificuldades vivenciadas pelos adolescentes. Em comum, um olhar cuidadoso e acolhedor que entende a Educação como um direito que contempla a aprendizagem, mas não se restringe a ela. "As redes que acolhem os estudantes mais vulneráveis possuem uma educação que também protege, pessoas que se identificam e se solidarizam com as questões trazidas pelos alunos", afirma Julia. "Não há heróis que venceram, mas estudantes que conseguem superar uma determinada situação a partir do momento em que têm uma rede de apoio. Em todas as situações, há o papel coletivo da escola, das políticas públicas."

"Quando você propõe um propósito e consegue alcançar, é muito gratificante", diz Endryo, que se colocou diante do desafio de completar o Ensino Médio. Chegou lá e foi o primeiro dos quatro irmãos a concluir a Educação Básica. "Acho que minha mãe ficaria feliz ao ver o caçula se formando. Provavelmente choraria."

Trajetórias Escolares vai ao ar no canal Futura todas as segundas-feiras, às 23h, com reprises nas terças, às 15h30, quartas, às 19h45 e sábados, às 6h15. Os 13 episódios também ficam disponíveis no Globoplay.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL