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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Neste ano, vamos curtir o Halloween sem culpa

Anchiy/iStock
Imagem: Anchiy/iStock

Rodrigo Ratier

31/10/2021 06h00

Uma festa trazida de fora, que reflete nossa mentalidade "colonizada". Estímulo a hábitos alimentares questionáveis, porta aberta a conservantes de toda natureza e convite às cáries. Culto ao consumismo e desperdício, porque a profusão de plástico em fantasminhas e cabeças de abóbora vai para o lixo no dia seguinte. Paro por aqui com as críticas ao Halloween. Mas, diante de um período ainda tão difícil, quando estamos finalmente conseguindo tirar a cabeça para fora d'água, é o caso de perguntar: que mal há?

Diz-se que a festa tem raízes celtas. O certo é que chegou por aqui de carona no soft power cultural norte-americano. O contra-ataque tupiniquim — estabelecer o mesmo 31 de outubro como Dia do Saci — não pegou. Acho que o simpático jovem negro de cachimbo entenderia que, em tempos pandêmicos, decidimos juntar-nos a "eles": na falta de um Halloween, participamos de dois. Um num condomínio de casas, outro aqui no prédio.

Em ambos, a meninada se divertiu. As pequenas aqui de casa fizeram a farra ao se fantasiar de bruxa, com esmero para caprichar nos detalhes assustadores da maquiagem. Depois, lutaram pelos doces mais cobiçados. Pelo menos por aqui, há uma hierarquia evidente, correspondente à raridade da oferta. Paçocas, balas Chita e 7 Belo todo mundo dá. Chicletes e pirulitos que "tatuam" a língua também já não impressionam. A coisa muda de figura com modelos mais elaborados, em espiral, ou com guloseimas feitas sob medida para a data: chapéus de bruxa, dentes avulsos ou em arcada, mini abóboras que estouram na boca. Isso, sim, é tratado como troféu, e armazenado pelo máximo de tempo que a vontade infantil permite (um dia).

No nosso caso em específico, também foi bacana ver nossa filha menor, de 3 anos, já não se assustar com caveiras de isopor, lápides de EVA e demais apetrechos medonhamente falsos. Talvez mesmo em sua versão pasteurizada o Dia das Bruxas ajude, de alguma forma, a lidar com o medo da morte e do desconhecido.

Com adultos e adolescentes vacinados, de máscara e em espaços ventilados -- sei que o vírus não sabe ler que "todos os protocolos estão sendo observados", mas, enfim --, nos sentimos razoavelmente seguros. O mais bacana foi ver a vizinhança se mobilizando para a festa, decorando casas, preparando kits de doces e, principalmente, abrindo as portas das casas a cada "gostosuras ou travessuras". Se houvesse a mesma empolgação para outras causas, o prédio, o condomínio e o país seriam diferentes, mas isso é papo para outra hora. Na hora da festa, vimos muita gente ansiosa para rever outras pessoas em situação de relativa normalidade. Pareciam alegres.

Se algum dia já torcemos o nariz para o Halloween (já), isso diminuiu bastante depois que tivemos filhos e foi para as cucuias após quase dois anos de temor e escasso contato social. O aspecto um tanto ridículo da vizinhança fantasiada era também o elemento lúdico e, por que não, de alguma esperança de que aqueles seriam os primeiros eventos de uma retomada com cada vez mais proximidade física, cada vez mais alegria. Alguém aí falou em carnaval?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL