PUBLICIDADE
Topo

Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem redes, um dia glorioso para a saúde mental

Jenna Schoenefeld/The New York Times
Imagem: Jenna Schoenefeld/The New York Times

Rodrigo Ratier

04/10/2021 20h40

"Se ninguém se ofereceu para escrever um texto sobre este dia glorioso sem redes, me candidato", informei minha editora em Ecoa. O canal foi um pouco incomum para os tempos de hoje: uma mensagem de SMS, que não foi contestada de bate-pronto, como ocorre no WhatsApp. Nem precisava. Não era urgente, não vai resolver os problemas da nação, não vai mudar a sua vida se você decidir interromper a leitura por aqui. Já estamos até a tampa de informação e opinião, de modo que a resposta a uma ideia de pauta podia esperar.

Todo o resto também esperou enquanto a santíssima trindade das redes sociais — Facebook, Instagram e WhatsApp — estava fora do ar. Relembramos um tempo em que o telefone, genial invenção hoje reduzida a um aplicativo marginal, era a forma predominante para a comunicação remota. O meu hoje tocou — e veja que coisa! Não era um robô de telemarketing ou golpe de sequestro falso. Era mesmo pra mim. Um recado corriqueiro, que poderia ser uma mensagem de texto ou um áudio deglutido apressadamente em velocidade 2. Mas foi bom escutar a voz da minha interlocutora e trocar algumas palavras para além do lembrete objetivo.

Não foi uma libertação de todo bem-vinda. O aspecto viciante das redes se fez presente nas tentativas frustradas de acessar os aplicativos. Depois de algumas timelines travadas e um insistente sinal de recarregando, desisti. Outros amigos não se conformaram e montaram um espelho do grupo de Zap no Signal. Passei — e acho que não perdi grande coisa. Assim como não me fizeram falta os scrolls infinitos no Insta ou a ronda pelas últimas polêmicas do Face.

Sobrou mais tempo. Pude deixar de lado algumas práticas constrangedoras, como brincar com minhas filhas preocupado com o último recado do trabalho. Ou almoçar enquanto confiro a quantas estava o engajamento em minha última postagem. Não foi preciso — por outra, mesmo que fosse não daria. Estava tudo quebrado.

É surpreendente. Estamos tão imersos na lógica das redes que a ausência, mesmo que por algumas horas, do contato intensivo parece criar um precioso espaço mental, abrindo possibilidades de nos concentrarmos em alguma atividade significativa por mais que alguns segundos. Há algo de profundamente errado no fato de sacar o celular a cada pequeno momento de tédio no dia a dia, durante um encontro romântico, no meio da aula e por aí vai. Se o lado negativo é um estado constante de confusão, é de se pensar no que efetivamente ganhamos com essa dinâmica. Estamos mais bem informados? Incidindo com mais qualidade no debate público? Nos aproximamos de quem gostamos?

Dias como hoje indicam que a resposta para todas essas questões é "não".

Um bom resumo deste 4 de outubro seria: ninguém morreu, ninguém precisou desesperadamente de mim, minhas opiniões não fizeram nenhuma diferença, não houve recado depois do horário comercial, nenhuma treta online, zero figurinhas de WhatsApp adicionadas aos favoritos (ok, essa parte não foi tão legal assim). Não senti falta de ninguém e estou certo de que ninguém sentiu falta de mim. O tempo correu mais lento e menos ansioso. Abriu-se a porta para um estado de maior presença na realidade concreta, a que importa. O complicado é que isso deveria ser uma conquista consciente e não o efeito colateral da ausência das redes. De todo modo, já estou contando os minutos para a próxima pane global. Será a hora, novamente, de desacelerar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL