PUBLICIDADE
Topo

Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na escola, falar muito de suicídio não ajuda a prevenir, diz especialista

iStock
Imagem: iStock

Rodrigo Ratier

27/09/2021 06h00

Setembro amarelo, como se sabe, é uma campanha de prevenção ao suicídio que dura o mês inteiro. Apenas no Brasil são mais de 13 mil casos por ano, e os números são crescentes entre os jovens. Por conta dessa tendência, a escola é um dos lugares privilegiados para abordar o tema e caminhos para precavê-lo. Portanto, quanto mais se discutir a prevenção ao suicídio no ambiente escolar, melhor, certo?

Não necessariamente. "Muitas vezes, falar sobre o assunto para quem está em risco pode aumentar a chance do suicídio ocorrer", afirma Rodrigo Bressan, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Psiquiatra e presidente do Instituto Ame Sua Mente, ONG dedicada à promoção da saúde, Bressan alerta que a forma e a recorrência como se discute um suicídio pode ocasionar o chamado Efeito Werther.

O nome faz menção ao protagonista do livro "Os Sofrimentos do Jovem Werther", de Goethe. Na obra, um rapaz apaixonado por uma mulher que iria se casar com outro comete suicídio, fato que acabou imitado na vida real por pessoas que se matavam com trajes semelhantes aos do personagem. Nas últimas décadas, diversos estudos sugeriram a associação entre publicidade de um suicídio e o aumento subsequente de casos, levando a mudanças na maneira e na frequência como a mídia noticia essas ocorrências.

"Não gosto de falar nas escolas quando acontecem esses casos. Mas é quando nos convidam", diz Bressan. "Aí, o que buscamos é mostrar que a prevenção ocorre quando se decide fazer um trabalho mais abrangente sobre saúde mental. O que precisamos é de ações de letramento sobre o tema", defende.

A pandemia tornou a discussão urgente e, num certo sentido, bem-vinda. "A crise levou todo mundo a falar de saúde mental. É mais aceito dizer que se está triste e angustiado. As pessoas ouvem, a consequência bonita é essa abertura maior para o tema". Quando há senso de pertencimento e solidariedade, a escola é um espaço privilegiado para compartilhar as dificuldades desse período e, aos poucos, elaborá-las. "Ninguém entende tanto de criança e jovem quanto os professores. Se recebem capacitação, eles podem identificar sinais de transtornos", afirma.

Com o retorno às aulas presenciais, os próximos meses serão cruciais no acolhimento. A atenção deve estar nas pessoas da comunidade escolar que "já apresentaram sinais de alerta de problemas emocionais em outros momentos ou que já haviam recebido o diagnóstico de algum transtorno mental, pois eles tendem a carecer de maior apoio", diz o Guia Volta às Aulas, desenvolvido pelo Instituto. "Entre os transtornos mentais do adulto, 75% começam antes dos 24 anos, 50% antes dos 14 anos. A intervenção precisa ser precoce, daí o papel da escola", diz Bressan.

A presença atenta e empática é o ponto principal nesses processos. "O conteúdo da fala frequentemente é menos importante do que sua postura experiente e acolhedora", propõe o Guia. "Como tem sido essa experiência para você?" é uma pergunta-chave a se fazer para quem está em sofrimento. Outras recomendações incluem:

  • Favorecer que os alunos comuniquem seus preocupações em privacidade, longe de áreas de grande circulação;

  • Privilegiar a escuta, com perguntas que incentivem o aluno a expor experiências e pensamentos;

  • Evitar tentativas artificiais de animar a pessoa ou sugerir que ela "segure a barra". O foco é ouvir com atenção a dor que ela está vivendo.

  • Aceitar que surjam emoções como a raiva e o choro. Elas são partes do processo de elaboração de uma eventual perda.

Além da indispensável sensibilidade e bom senso, é preciso pensar também em como a escola contribui — ou atrapalha — para a saúde mental de sua comunidade. Entra em cena o debate sobre clima escolar. "Devemos discutir se as pessoas estão bem na escola. Se não estão, é o momento de analisar as causas. Muitas vezes, esse processo é a porta de entrada para abordar questões como bullying, gênero e sexualidade, por exemplo".

Retomando o conceito de letramento em saúde mental, a ideia é que, com o avanço do trabalho, todo mundo vai sendo empoderado para lidar com essas questões. "Saúde mental passa pela ideia de se responsabilizar pelo seu funcionamento emocional. Claro que há problemas mais graves, mas a maioria das questões podem ser resolvidas fora do consultório do psicólogo e do psiquiatra", afirma. No fim das contas, abordar o tema de forma mais abrangente é um caminho para a prevenção de suas decorrências — a mais dramática delas o suicídio. E, também, para enfrentar problemas da própria escola. "Evasão, baixa performance, conflitos e violência estão diretamente relacionadas a questões de saúde mental", finaliza Bressan.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL