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Rodrigo Ratier

REPORTAGEM

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Nas Olimpíadas escolares, medalhas para o processo e não só para resultados

Instituto Federal do Amazonas - Portal do Instituto Federal do Amazonas/Reprodução
Instituto Federal do Amazonas Imagem: Portal do Instituto Federal do Amazonas/Reprodução

Rodrigo Ratier

26/07/2021 06h00

Ouro, prata, bronze. Por emocionantes que sejam, as imagens eternizadas nas premiações de Jogos Olímpicos são inexatas e, em muitos sentidos, injustas. Um pódio mais realista incluiria, além dos atletas medalhistas, toda a equipe de colegas e técnicos que os ajudaram a chegar lá. Se o foco estivesse em recompensar as maiores evoluções, os medalhistas seriam aqueles que mais incrementaram suas performances, e não necessariamente "os melhores". E se houvesse preocupação com o combate às desigualdades, a tribuna reservaria um espaço para aqueles países que raramente ganham medalhas. Não porque sejam "piores", mas simplesmente porque largam de um ponto de partida desfavorável em relação aos concorrentes.

Se esse cenário ainda é impensável no esporte de alto rendimento, no universo da educação ele já é possível. A Olimpíada da Língua Portuguesa (OLP), o concurso de produção de textos mais popular nas escolas públicas brasileiras, estreia sua sétima edição com novos critérios. Em vez de destacar as 20 melhores redações como nos anos anteriores, a OLP passa a reconhecer conjuntamente o trabalho de alunos e professores como um coletivo: agora, serão 20 turmas premiadas, com seus respectivos educadores. Também haverá reserva de metade das vagas na semifinal para as escolas situadas em territórios vulneráveis, com baixo IDH e desempenho mais fraco nas avaliações educacionais. Forma de favorecer uma avaliação mais justa.

É uma mudança e tanto. Ainda que tivesse como foco as escolas públicas, a OLP tendia a jogar luz sobre instituições mais bem estruturadas, professores de melhor formação e alunos de destaque na rede. Pouco aparecia uma ideia cara à educação, a de não deixar ninguém para trás. "Havia um incômodo, porque o aprendizado da língua é um esforço coletivo", afirma Claudia Petri, mestre em educação pela PUC-SP e coordenadora no Itaú Social, ONG responsável pela Olimpíada. "Passamos a nos perguntar como seria um concurso que premiasse não apenas o resultado de um grupo seleto, mas o processo que ocorre entre professores e estudantes. Chegamos na fórmula que inclui textos escolhidos pela turma toda e um relato de prática do professor, que conta como se deu o trabalho".

Os jurados, agora, devem avaliar textos de dois alunos em duas versões: uma inicial e outra final, depois de sucessivas etapas de revisão e reescrita. A amarração entre os dois momentos é dada pela documentação do professor, que explica as atividades realizadas e como elas permitiram o avanço na produção. Redigir essa espécie de "diário de bordo" também ajuda o professor a evoluir. "Para escrever, ele precisa refletir sobre seu trabalho, o que também é formativo. Ao revisitar suas memórias, percebe o que poderia ter feito diferente", diz Cláudia. Já a turma aprende não apenas com a escrita, mas com a própria escolha dos textos que vão representar o coletivo. "Os textos dos dois alunos não precisam ser os melhores, mas os que melhor indicam como se deu o processo", completa.

A perspectiva coletiva já estava presente em algumas produções premiadas em edições anteriores. Em 2016, Michele Oliveira, então professora do Instituto Federal do Amazonas, em Tabatinga, convidou a turma do 3º ano do Ensino Médio a escrever uma carta pedindo o asfaltamento da rua da escola. "Tudo partiu da demanda dos alunos, que no início do ano, época do inverno amazônico, muitas vezes chegavam enlameados para a aula", conta ela.

O trabalho para produzir um texto argumentativo envolveu seminários de diversas disciplinas. "O professor de Sociologia falou do acesso desigual à infraestrutura no Brasil. Em geografia, apareceu a questão hidrográfica e o regime de chuvas. E em química, o que seria melhor para aquele tipo de solo: pavimentação ou concretamento?". A turma percebeu que a segunda opção era mais adequada para as características ambientais da região e incluiu isso no pedido ao prefeito do município. Em seguida, com a escuta à comunidade do entorno, descobriram a importância do asfaltamento não apenas para a escola, mas para uma aldeia indígena próxima e um centro de acolhida de idosos.

A escrita inicial das cartas foi individual, mas com participação dos colegas, que liam as produções e sugeriam melhorias. No final, um concurso com a presença da comunidade escolheu a mais representativa. "Eles entenderam que o objetivo não era levar todas as cartas, mas uma que falasse em nome de todos que precisavam daquela mudança", explica a professora. Um ônibus cheio de alunos partiu para a prefeitura para entregar o pedido. O resultado foi positivo. "O prefeito foi à escola para responder aos alunos. Hoje, a rua está completamente asfaltada", comemora Michele, que aprova as mudanças na OLP: "Diante de uma sociedade que cada vez mais se individualiza, é importante mostrar que os ganhos da educação são sobretudo coletivos".

A edição 2021 da OLP já conta com 112 mil inscrições, enviadas por 59 mil professores de 27 mil escolas. Em agosto se encerra o período de registro dos materiais que serão mandados à comissão julgadora. O trabalho pode ser acompanhado no site "Escrevendo o futuro". O tema é mesmo para todos os anos - "o lugar onde vivo" —, mas o gênero de escrita varia para cada ano: poema (5º ano), memórias literárias (6º e 7º), crônica (8º e 9º) e artigo de opinião (3º ano do Ensino Médio) e documentário (1º e 2º anos do Ensino Médio). Os vencedores serão conhecidos no mês de dezembro.