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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Precisamos de educação ambiental além do ingênuo "não polua"

Exposição "Viagem ao mundo animal" - Reprodução
Exposição "Viagem ao mundo animal" Imagem: Reprodução

Rodrigo Ratier

19/07/2021 06h00

É um sucesso de público a exposição "Viagem ao Mundo Animal". Depois de passar dois meses e meio em um shopping de São Paulo, a experiência interativa chega para uma temporada em Brasília. Ajuda muito a propaganda repetitiva em canais infantis, com todos os problemas da publicidade direcionada a crianças. Estou entre os pais que sucumbiram aos insistentes pedidos e toparam pagar, no caso paulistano, mais de 200 reais por carro. Levando o lanche de casa conseguimos driblar as guloseimas e souvenires vendidos a preços questionáveis na espera do evento. Nossa filha maior se queixou que um simples saco de pipoca correspondia a dois meses de sua mesada, o que disparou um papo não requisitado sobre elevação do subsídio parental. Conversa para outra hora.

A exposição tem objetivos ambiciosos: em uma "aventura incrível" — formato drive-in por um misto de projeções em computação gráfica e de atores fantasiados de bichos viventes e já extintos —, "conscientizar sobre a importância da preservação da natureza". Não é propriamente científico, porque a licença poética corre solta: o domo da era do gelo junta no mesmo lugar pinguins, ursos polares e mamutes, o do oceano tem sereias e por aí vai. A perspectiva da preservação segue o roteiro tradicional, prescritivo e individualizante. "Não jogue lixo nos mares", "não queime as árvores", "economize água". No final, tudo fica bem porque as crianças recebem varinhas mágicas — que precisam ser devolvidas ao final do passeio se você não quiser comprá-las por 20 reais —, com o poder de despoluir os oceanos, apagar incêndios florestais e frear o aquecimento global.

Me pergunto se aquela era a mensagem correta a se passar. Você manda a criança tomar banhos curtos mas omite que a pegada hídrica de 1 kg de carne é de 15 mil litros de água. Fala de queimadas como se fossem problemas solucionáveis pela boa vontade de proteger biomas sem mencionar que as políticas e instituições que poderiam conter o problema estão sendo desmontadas. Apresenta o aquecimento global como algo consertável, literalmente, num passe de mágica. Não haveria uma forma menos ingênua de se fazer educação ambiental?

"Me parece um jeito possível de trabalhar a questão da preservação quando se trata de uma exposição em shopping. Funciona como uma cartilha de práticas de como as crianças podem ter um primeiro contato com essas questões", afirma Renata Vasques, professora-coordenadora da área de Ciências da Natureza na Escola Vera Cruz. Mas há outros caminhos mais virtuosos. "Como professora e como mãe, parto do princípio de que toda prática precisa ter sentido. Por que não posso jogar o papel do sorvete na praia? Por que meu banho precisa ser curto?"

Aí começamos a dimensionar o tamanho da encrenca e deixar, aos poucos, a perspectiva — não há outra palavra — neoliberal que carrega tintas na responsabilização individual. É na escola em que a criança começa a perceber que não está sozinha na cidade. Existem as empresas, as indústrias, o agronegócio. Esse sistema interconectado confere características específicas à cidade, ao país e ao planeta. Nem sempre estão a serviço da preservação ambiental.

Renata cita um exemplo prático da própria escola. Na unidade recém-inaugurada, as crianças do 4o ano ficaram sabendo que o bairro sofria muito com alagamentos. A hipótese inicial das crianças era a de que o problema seria causado pelo lixo jogado na rua. "Explorando os mapas da região, descobrimos nascentes visíveis e indicações de rios escondidos. Claro que o lixo tem impacto, mas não é por isso que a cidade alaga. A turma foi compreendendo que o crescimento maluco de São Paulo não respeitou os córregos que estavam ali. Foram todos canalizados e, quando chove, alaga."

Conhecer as causas ajuda a pensar nas melhores soluções. A perspectiva rasa do senso comum individualizante pode ser superada por meio do conhecimento. É preciso entender o funcionamento integrado da sociedade para buscar as melhores formas de fazer sua parte pela sustentabilidade — seja cobrando políticos, mudando hábitos alimentares, pressionando por mudanças na legislação ou, vá lá, tomando banhos mais curtos. Isso se faz provocando as crianças a um olhar mais crítico e aprofundado, incentivando-as a criar hipóteses e questioná-las, indo atrás de informações certeiras. E para quem acha que os pequenos não dão conta de saberes tão complexos, um recado animador: "Muitas vezes as pessoas subestimam a capacidade de compreensão das crianças sobre temas como sustentabilidade e questões ambientais. Eu as vejo na sala de aula muito mobilizadas e criativas. São maravilhosas", finaliza Renata.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL