PUBLICIDADE
Topo

Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem vacina contra o ódio, não voltaremos à vida normal

O presidente Jair Bolsonaro - Ueslei Marcelino/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Rodrigo Ratier

24/05/2021 06h00

"Como está por aí?", perguntam no grupo de WhatsApp ao amigo brasileiro que mora em Seattle. Já imunizado — nos Estados Unidos conseguir vacina é tão simples quanto comprar analgésico na farmácia —, o colega começava a usufruir dos benefícios de não precisar usar máscara em ambientes externos e em grande parte dos lugares fechados. Tudo respeitando a segurança sanitária, seguindo a nova resolução do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

Esperávamos que ele contasse sobre a liberdade saltitante de ir e vir, mas a ênfase foi outra: "Posso dizer que o clima mudou da água para o vinho nas ruas. As pessoas estão mais felizes, simpáticas."

Que inveja. Claro: também quero a possibilidade de ir a festas, encontrar amigos sem medo, frequentar restaurantes, viajar. Mas o que me marcou na frase surpreendente e certeira do amigo expatriado foi essa dimensão tão óbvia do normal. O normal é ser feliz.

Por aqui, a vida está "anormal" desde antes da pandemia. O Brasil desistiu de ser um país alegre e cordial. Isso tem lá suas vantagens: conflitos seculares e naturalizados, o racismo estrutural, o machismo e a xenofobia não estão mais sendo varridos para debaixo do tapete — ao menos não tão rápido e não totalmente. Mas o remédio virou veneno e hoje os afetos prevalentes são os negativos.

A polarização fortalece uma visão binária do mundo que nos leva a enxergar tudo pela lógica chapada do amigo x inimigo. Se me contraria em algum âmbito da vida — partidário, esportivo, religioso etc. —, é integralmente contra mim. Eliminam-se as nuances e as complexidades da personalidade. Congela-se a pessoa no tempo, apaga-se a possibilidade de ela aprender e mudar para melhor.

Falo por mim, pois sou parte do problema. Já não vejo mais graça no cachorro salsicha que passa latindo — porque a dona perambula sem máscara. Já não dou risada das piadas do vizinho boa praça — pois ele insiste em tomar o elevador mesmo que o condomínio proíba a ocupação por pessoas de apartamentos diferentes. Não cumprimento o barbeiro símbolo do bairro — porque ele calhou de usar camiseta da seleção e eu suspeito que se trate de um minion. A rapaziada do bar me irrita porque, enfim, o que custa esperar um pouco mais para aglomerar? O primeiro movimento é de desconfiança e isso é trágico. Não há sociedade sem um mínimo de crença na sinceridade afetiva das pessoas.

Pode-se falar que não foi Bolsonaro que inventou a lógica do nós contra eles, talvez o mais básico dos elementos da disputa política. Só que na história recente do país ele foi o primeiro, infelizmente não o único, a defender a eliminação dos opositores, a "acabar com os ativismos", a "mandar para a ponta da praia" os esquerdistas, a "fuzilar a petralhada". Seu projeto é o golpe de estado, a ordem unida de uma base de apoio hipnotizada pelo carisma. Na imagem pandêmica, o bolsonarismo é um supervírus aglutinador de várias cepas de mágoa, ignorância, delírio e ressentimento — contra "comunistas", indígenas, LGBTQIA+s, a floresta, a renda básica, feministas, professores, artistas e movimentos sociais. Também contra a vacina, o isolamento social, a máscara e tudo mais o que funciona contra o coronavírus. A favor de quê, mesmo?

Se chegamos a isso, a responsabilidade é em parte da incapacidade de transformar o ódio em outra coisa. Se não em amor, ao menos em indignação, afeto ativo para a mudança das coisas, como mostram os protestos na Colômbia. Por aqui, fracassamos até em aplaudir os profissionais de saúde do conforto de nossas varandas gourmet, ou mesmo de fazer um barulhinho diário para desestabilizar o vírus presidencial. Precisamos de vacina contra o coronavírus, mas também contra o ódio e seus profetas. Se não nos livrarmos dele, mesmo com vacina não retornaremos à vida normal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL