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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paulo Guedes é falso espelho para a mediocridade da classe média

O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante anúncio da prorrogação do auxílio emergencial - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante anúncio da prorrogação do auxílio emergencial Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Rodrigo Ratier

03/05/2021 06h00

Não entrou na farmácia para comprar remédios, e digo isso com pesar. Portava óculos espelhados, calça camuflada, fios grisalhos rarefeitos e em evidente desvantagem para a calvície. A regata branca dava vista panorâmica à pièce de résistance: no ombro flácido, uma tatuagem da bandeira do estado de São Paulo.

Surpreendentemente, estava de máscara, e daquelas potentes, modelo N95. O resto seguiu o script. Dirigindo-se aos balconistas, desfiou um festival de impropérios contra tudo isso que está aí. Mostrou especial desagrado com a CoronaVac, "essa vacina chinesa, veja só que submissão". Tinha lido que os Estados Unidos iriam proibir a entrada de quem tivesse tomado o imunizante. "Eu não! A minha foi AstraZeneca", comemorou. Por razões que ignoro, a oratória tomou um rumo "freestyle", com críticas a uma atleta que — perdão pelo meu francês — estaria precisando "de pau de arara ou outro tipo de pau", e defesa à intervenção militar pois "passou da hora de dar um basta nessa bagunça". Finda a obra, saiu como entrou: de mãos abanando e cara de poucos amigos, com os quais me solidarizo.

Fiquei um instante indeciso, com medo de fazer perguntas. Tentei quebrar o silêncio comentando sobre as dores e as delícias da audição, e como certas coisas são impossíveis de serem desouvidas. Contam que se trata de presença folclórica na drogaria. "Aposentado, passa o dia inteiro sem fazer nada. Vive encaminhando WhatsApp com coisa do Bolsonaro."

Seria desgastado enxergar no presidente a inspiração para o cosplay de militar da reserva. E algo impreciso: Bolsonaro já ordenou aos ministros que parem de insistir para que ele se vacine. O tiozão de Zap se imunizou — e, ao contrário do capitão reformado, tem a fineza de nos proteger de suas opiniões não solicitadas com as 5 camadas de sua N95. Possui uma pátina de civilidade, feita do mesmo material que recobre outra figura vulgar de alto escalão, cada vez mais desnudada por sua própria língua.

Do 5º andar do Bloco P, no Eixo Monumental em Brasília, nascem ideias e frases bastante próximas às do nacionalista da farmácia: críticas à China ("o chinês inventou o vírus"), insinuações sobre golpe de estado ("não se assustem, então, se alguém pedir um AI-5") e misoginia ("O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron [presidente da França] é feia. Ela é feia mesmo"). Há também homologia nos costumes: Paulo Guedes foi o único a usar máscara no infame pronunciamento de Bolsonaro sobre a saída de Sergio Moro. E admitiu ter sido imunizado recentemente. Com CoronaVac, vejam só.

Talvez não tenham chegado ao Zap do viúvo de 1932 outras falas do manda-chuva da Economia: censura ao comportamento das classes populares porque "ricos capitalizam seu recurso, os pobres consomem tudo"; condenação ao câmbio baixo pois havia "empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada"; demonização do financiamento estudantil porque disse ter ouvido do filho do porteiro que ele tirou zero no vestibular e ainda assim ganhou bolsa.

Se o aposentado falastrão leu essas frases, provavelmente aplaudiu. Seria compreensível. Jessé de Souza explica que, como herança da escravidão, a classe média tende a uma concepção distorcida de si mesmo e de sua posição social. Seus integrantes costumam se identificar com a elite quando, na verdade, são vistos pelos mais ricos ao lado daqueles que desprezam: "empregadas domésticas", "porteiros", "pobres que consomem tudo". Inimigo da longevidade ("todo mundo quer viver 100 anos, 130 anos. Não há capacidade instalada no setor público para isso"), o ministro talvez veja o pensionista como um "parasita" do sistema. O governo que integra está fazendo o possível: a expectativa de vida do brasileiro recuou 2 anos com a trágica gestão da pandemia. Como no meme: "se vocês morrerem, a economia decola".

Imagino Guedes gargalhando ao ouvir o manifesto da drogaria. Ir para os Estados Unidos como, meu amigo, com o dólar a 6 reais? Isso é coisa para milionários como o ministro da Economia, que devem a nós boa parte da fortuna amealhada no mercado financeiro. Guedes costuma dizer que é um produto da oportunidade de educação, veio de classe média-baixa e venceu pelo mérito. Em sendo verdade (dada a quantidade de lorotas, é sempre bom desconfiar do ministro), Paulo Freire explica: "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor". Lição válida da Esplanada dos Ministérios a pequenas farmácias em Perdizes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL