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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rir é o melhor remédio mesmo se o assunto for coronavírus?

Cena de espetáculo Monty Phyton de 2014 na Arena O2 - Geoff Robinson Photography/REX
Cena de espetáculo Monty Phyton de 2014 na Arena O2 Imagem: Geoff Robinson Photography/REX

Rodrigo Ratier

15/02/2021 09h11

O sujeito conversa com o sargento de plantão em uma delegacia de polícia. Desastre total. Sua casa, arrasada por uma tempestade, deslizou morro abaixo, cruzou a pista da estrada junto ao mar e afundou no oceano. O sargento ouve atentamente o relato e responde: "Tudo bem, vou anotar 'sem endereço fixo'".

É sempre possível rir da desgraça, a própria e a alheia. Acionado no momento certo, o humor é ferramenta poderosa não apenas para divertir, mas para fornecer uma perspectiva diferente sobre nossa realidade. "Olhe sempre o lado brilhante da vida", cantam os crucificados no imortal A Vida de Brian, do grupo inglês Monty Phyton. Mas em tempos trágicos, o humor é aceitável? Mais: é necessário? Com uma pilha de mortos diante dos olhos, devemos fazer troça com assuntos terríveis como a pandemia?

Muita gente não aprova o humor na crise. Situações graves merecem posturas sérias e de fato, a zombaria e a ridicularização podem ser um risco social. O negacionismo sem graça do Tiozão do Pavê fantasiado de presidente é prova viva de que certo tipo de humor pode ser insensível e doloroso. Mas talvez seja possível pensar em alguma modalidade que nos ajude a amenizar a tristeza, distrair-nos da dureza do dia a dia e nos auxiliar a seguir adiante com o novo normal.

Em 1995, o psicólogo americano Steven Sultanoff examinou o assunto em artigo com título poético: "A leveza desafia a gravidade: como usar o humor em situações de crise" (Levity Defies Gravity: Using Humor in Crisis Situations, no original em inglês). Sultanoff observa que há tipos de humor que, em geral, são bem recebidos pelos outros: o autodepreciativo (quando o alvo da piada é quem a conta) e o de situação (que fala de um contexto em que todos estão, em maior ou menor grau, imersos). O humor mais problemático, como se sabe, é o dirigido a indivíduos ou grupos, que pode ser usado para rebaixar, insultar ou espalhar preconceitos sexistas, racistas e homofóbicos.

Sultanoff aponta que grandes desastres costumam evocar humor de situação -- que em tese, é inofensivo. Ajustando para a situação da pandemia, seria um chiste como "Gostaria de que o corona tivesse começado em Las Vegas, porque o que acontece em Vegas, fica em Vegas." Ainda assim, ele reconhece que mesmo gracejos desse tipo podem não ser bem recebidos em momentos de trauma coletivo. Por quê?
A explicação estaria na resposta psicológica dos seres humanos à catástrofe. "Durante uma crise", escreve ele, "os indivíduos mais próximos provavelmente integrarão a crise em seu ser emocional interno. Por outro lado, indivíduos distantes têm menos probabilidade de vivenciar essa fusão entre o eu e a crise". Assim, uma piada sobre a tragédia provavelmente vai soar de maneira distinta nesses dois grupos. "Aqueles que estão distantes podem ser auxiliados pelo humor porque ele cria uma distância segura da crise. Quem está imerso na crise experimenta o humor dirigido à crise como se fosse dirigido a si mesmo e, portanto, como algo insensível". Para concluir: "usar o humor voltado para uma situação de crise com alguém que está passando por uma crise deve ser considerado com cuidado, pois o humor pode ser experimentado como um ataque".

A proximidade com a crise pode ser de três tipos: geográfica, emocional ou temporal. Isso ajuda a explicar por que a pandemia do coronavírus foi precedida por uma avalanche de piadas — o hit máximo foi o sucesso fúnebre do meme do caixão. À medida que avançava a gravidade da situação (em outras palavras, conforme aumentava a proximidade da audiência com a crise), as gracinhas foram minguando até desaparecer. Antes, elas reforçavam a ideia de que "ainda bem que não aconteceu comigo". A partir de um certo ponto, já não era mais possível dizer e sentir isso.

Qualquer retorno ao riso é arriscado e, nesse sentido, é preciso estar preparado para eventuais danos. Talvez a passagem do tempo ou uma certa banalização da tragédia tenham forjado o terreno para 2020 Nunca Mais (Death to 2020, no original), pseudocumentário que a Netflix encomendou aos criadores da série Black Mirror, Charlie Brooker e Annabel Jones. O gênero é adequado para um ano em que a realidade superou, com larga vantagem, a ficção. Com humor ácido e muita ironia, a obra ilumina os episódios surreais do ano, muitos deles dolorosos.

A obra foi bem recebida por crítica e público. Suspeito que a acolhida calorosa se deva à escolha dos alvos das piadas. Os preferenciais são figuras públicas poderosas, como o presidente americano Donald Trump e o premiê britânico Boris Johnson — Bolsonaro também não faria feio, embora ocupe apenas uns poucos frames do filme, espaço que representa bem a importância atual do Brasil no mundo. Há também personagens ficcionais, que representam de forma caricata comportamentos bem reais de pessoas comuns não individualizáveis: a dona de casa branca, negacionista e racista que se informa apenas pelas mídias sociais (Cristin Milioti); a assessora não-oficial de Trump especializada em fatos alternativos (Lisa Kudrow); o historiador boca-suja que mistura impunemente a interpretação da realidade com Game of Thrones e o Retorno de Jedi (Hugh Grant, grisalho e impagável); a solteirona isolada que desenvolve transtorno de múltiplas personalidades na quarentena apenas para poder ter com quem se relacionar (Diane Morgan).

Há deboche e escárnio, mas não há graça com as mortes. No trecho dedicado ao assassinato de George Floyd e ao movimento Black Lives Matter, o filme fala sério, e a intervenção abertamente racista da personagem ficcional provoca mais reflexão do que risos. Tudo somado, 2020 Nunca Mais deixa uma sensação positiva diante do escândalo que tem sido a vida, apontando a perspectiva de que, de alguma forma, estamos seguindo em frente. Como tudo na vida, o humor também se tornou mais arriscado em tempos pandêmicos. Ainda assim, ajustados alvo e público — cuidado redobrado com quem está muito imerso na crise —, fazer rir pode ser terapêutico para a sobrevivência em tempos insanos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL