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Rodrigo Ratier

Minhas filhas voltam com segurança à escola. Privilégio para poucos

Criança com máscara protetora na Bela Vista do Jaraqui - BRUNO KELLY/REUTERS
Criança com máscara protetora na Bela Vista do Jaraqui Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS

Rodrigo Ratier

29/01/2021 17h48

Vou mandar minhas filhas de volta à escola na semana que vem. Não foi uma decisão tranquila. Risco zero só com vacina, de modo que tempos pandêmicos nos põem diante escolhas difíceis entre misérias. Como não há governo, ocorre a pior situação possível: cada um é chamado a ser seu próprio educador e infectologista, comparando prejuízos de saúde física e mental antes de optar por algo que nunca será inteiramente satisfatório.

No nosso caso, pesou bastante o fato de termos duas filhas pequenas — 3 e 6 anos —, e as indicações de que o contágio e a transmissão nessa faixa etária é menor. Se fossem adolescentes, não enviaríamos. Com jovens, então, considerando as novas cepas especialmente violentas com essa população, nem pensar. Também não somos grupo de risco e, agora, o contato com os avós vai ter de esperar. Em resumo, nesta análise mambembe de segurança que fomos convocados a fazer, fica claro que somos privilegiados.

Privilégio em mais de uma dimensão, a razão principal do retorno tem a ver com o tipo de escola que elas frequentam. E aí não entra em jogo o fato de ser uma instituição particular. Sim, é uma escola privada, pequena e de bairro, com mensalidades que podemos pagar com nossos salários de hoje. Mas o fator essencial não é esse. Estamos relativamente confortáveis com as aulas presenciais porque trata-se de uma instituição com gestão democrática. Deu para ver como as coisas foram feitas.

Quando se cogitou a possibilidade de retorno presencial, uma das primeiras providências da escola foi montar grupos com pais, professores, funcionários e estudantes. Ao todo foram quatro comissões: pedagógica, saúde e biossegurança, socioemocional e comunicação. Sob a orientação de um profissional da saúde, a turma discutiu quais espaços da escola poderiam ser usados, como seria a interação no espaço escolar, a estruturação das aulas presenciais e o diálogo com as remotas, os cuidados no transporte, como preservar funcionários com problemas de saúde, quais conteúdos privilegiar no ensino — enfim, o pacote completo de decisões que precisam ser tomadas numa situação excepcional como a que vivemos. Feitas as escolhas, elas foram apresentadas à aprovação da comunidade escolar, que pode assim fazer, de maneira informada, sua escolha sobre voltar ou não.

Esse tipo de debate franco e aberto, que nos deu mais segurança sobre a decisão a tomar, está ao alcance de qualquer tipo de escola, seja ela pública ou particular. Movimentos como o Reviravolta na Escola propõem justamente que a pandemia sirva para fortalecer a gestão democrática. Por meio da conversa nem sempre simples e tranquila entre todos os segmentos, as decisões têm mais legitimidade e respaldo.

O fato é que, como regra, os gestores públicos pouco ou nada fizeram para que os alunos de redes municipais e estaduais pudessem estudar. Estamos a ponto de completar 1 ano de pandemia e muito poderia ter sido realizado: melhoria da infraestrutura para o ensino online, políticas abrangentes para garantir alimentação em substituição à merenda escolar, busca ativa para combater o abandono, reformas nas escolas para que a possibilidade de contágio fosse reduzida e que os protocolos fossem corretamente aplicados. Com raras exceções, o cenário é de paralisia. O MEC sumiu e os secretários da educação tem, como regra, esperado a reabertura para se mexerem.

O resultado é desastroso. É plenamente compreensível a recusa de profissionais da educação pública em retornarem às escolas. Se por um lado a postura de "volta às aulas só com vacina" é imobilista — sabe-se lá quanto tempo a pandemia vai perdurar —, de outro são os educadores que conhecem a realidade de desvalorização e carências estruturais dos ensinos estaduais e municipais. Pesquisa da Apeoesp mostrou que há mais de mil salas no estado de São Paulo sem condição de funcionamento. Também não foram chamados à mesa de discussão das políticas de retorno. Quando foram ouvidos, pediam: "nos deem condições para voltar". As melhorias não vieram, com exceção de algumas escolas que ganharam pias e bebedouros novos. Na capital, há relatos de escolas com centenas de alunos que receberam um único termômetro para aferição de temperatura. Diante disso, é preciso perguntar: quem não estaria receoso em retornar ao trabalho?

Movimentos de elite, institutos e fundações empresariais que têm defendido a abertura das escolas públicas parecem desconsiderar que o medo e a desconfiança têm razão de ser: como esperar que uma decisão que, no limite, é de vida ou morte, seja aceita de bom grado por pessoas marcadas por um histórico de promessas não cumpridas? Não à toa a adesão para atividades presenciais de reforço, autorizadas desde outubro de 2020, foi pífia.

A pandemia é uma catástrofe, mas no meio dos escombros seria possível erguer algumas bases para o fortalecimento do ensino. A transição tecnológica para um ensino remoto emergencial para todos, a transparência para que decisões cruciais fossem comunicadas, debatidas, construídas em conjunto, o compromisso com o cumprimento de protocolos sanitários e o repensar pedagógico. O tempo passou e, como um todo, avançamos pouco. Ao contrário, as polêmicas têm jogado pais contra professores, alunos contra alunos, professores contra o governo.

Se há uma coisa que o calvário atual nos ensina é que soluções individuais para problemas coletivos não funcionam. A decisão pela reabertura é complexa, exige análise criteriosa dos contextos e, sobretudo, participação ativa das comunidades escolares, estejam elas em escolas públicas ou particulares. Em algumas instituições, essa lição já começou a ser aprendida. Em outras, as crianças não terão o direito de tentar retomar os estudos com condições mínimas de segurança. Aprofunda-se a desigualdade.