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Rodrigo Ratier

O que Paulo Freire ensina sobre esperança em 2021

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Imagem: Reprodução

Rodrigo Ratier

04/01/2021 04h00

Para deleite e desespero dos conservadores, vai se falar muito de Paulo Freire neste ano. 2021, afinal, marca o centenário do patrono da educação brasileira. Os motivos para o deleite são evidentes: figuras midiáticas de extrema-direita elegeram o educador pernambucano como bode expiatório de todas as mazelas do ensino brasileiro. Como vivem da espetacularização, recorrerão à descontextualização, distorção e desinformação do pensamento freireano para seus 15 segundos de fama nas redes sociais. O desespero, por outro lado, provém da extrema atualidade da obra do terceiro pensador mais citado em trabalhos pelo mundo. Mal entra o ano e "esperança" já é palavra da moda. Freire tem muito a dizer sobre o tema, tendo dedicado a ele todo um livro: "Pedagogia da Esperança", publicado originalmente em 1992.

"Mas como, Paulo, uma Pedagogia da Esperança no bojo de uma tal sem-vergonhice como a que nos asfixia hoje, no Brasil?". Eis, na pergunta retórica do autor, formulada 29 anos atrás, a atualidade de que falávamos. Freire reconhece estados de espírito que nos são familiares: cansaço existencial e anestesia histórica resultariam na impossibilidade de vislumbrar um mundo melhor no futuro. Você se identificou? Ainda que apresente a desesperança como algo concreto, com explicações históricas, econômicas e sociais, Freire a rejeita. Não por "teimosia'', mas por "necessidade ontológica": o ser humano tem esperança, ou seja, vê como possível a realização daquilo que deseja, porque essa característica lhe é intrínseca — constitui sua própria essência. "O mundo não é, o mundo está sendo". Freire defendia a compreensão da história como possibilidade e não como determinismo. O sonho seria um dos dínamos da história. Não há mudança sem sonho e nem sonho sem esperança.

Engana-se quem espera uma argumentação excessivamente idealista. Como Freire anuncia no subtítulo do livro, sua Pedagogia da Esperança é um "reencontro com a Pedagogia do Oprimido". A oposição entre opressores e oprimidos, como se sabe, é um dos motores da história para o pensamento freireano. Nesse sentido, há estreita ligação entre esperança e luta social. Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo é ingenuidade. Não há esperança na pura espera, e Freire insistia que não se podia confundir esperança do verbo esperançar com esperança do verbo esperar. Se de um lado é preciso vencer o fatalismo de que as coisas são como são, de outro a esperança precisa de embate para se tornar palpável no mundo.

Esperança e luta, assim, vão de par: esta sem aquela é titubeante, aquela sem esta é intenção nunca realizada. A abstração precisa ter ligação com o concreto. Luta, para Freire, é um processo histórico coletivo. Ninguém muda o mundo sozinho, e os processos coletivos de enfrentamento podem conceber acordos e acertos entre diferentes para melhor enfrentar os antagônicos. A unidade na diversidade — uma "frente ampla", para atualizar a nomenclatura — seria o caminho para mostrar que a "única e real minoria" é a classe dominante.

Educador que era, Freire defendia que a educação também se ocupasse da esperança. Seu papel seria evitar que se experimentasse a esperança "da forma errada", originando lutas desesperançadas ou desesperadas, que o autor classifica como "suicidas", "corpo-a-corpo puramente vingativo". Nesse sentido, a tarefa do educador e da educadora seria auxiliar os educandos a desvelar possibilidades para a esperança. Entra em cena o conceito de "inédito viável". Apresentado na Pedagogia do Oprimido, inédito viável fala de algo ainda não claramente conhecido e vivido, mas sonhado por quem se sente mobilizado a agir. Quando essas pessoas entendem que a realidade não pode permanecer como está e precisa ser enfrentada, discutida, superada, o sonho inédito começa a se tornar realidade viável.

Em resumo, o que o Freire de 1992 anuncia a nós, seres pandêmicos de 2021, é que, ainda que a liberdade humana se apresente como relativa e a vida seja feita de condicionamentos, um mundo melhor é possível. A mensagem necessária para este começo de ano é apenas a primeira da vasta obra de nosso maior pensador. Que esperança e luta não sejam apenas repetições abusivas em nossas mensagens de ano-novo, mas guias práticos para um período que se afigura como desafiador, e ao mesmo tempo, e fértil de possibilidades positivas.