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Rodrigo Ratier

Covid: entre pânico ou "vida normal", faltou falar em redução de danos

O Ano Novo em tempos de Covid-19 - iStock
O Ano Novo em tempos de Covid-19 Imagem: iStock

Rodrigo Ratier

28/12/2020 04h00

"O meu amigo secreto é daqueles que espalha alegria, sabe? Contagiava todo mundo por onde passava. Só que, hoje, ele não está aqui, porque fui eu que contagiei ele. Desculpa, pai. Desculpa."

Em depoimento fictício, uma jovem aos prantos alerta para os riscos de espalhamento do coronavírus durante as festas de fim de ano. O vídeo do governo do Ceará é forte: o tom emotivo evoca o medo, sentimento que pode ser mobilizado para mostrar que a pandemia, infelizmente, segue por aí. Precisamos disso?


De certa forma, sim. Tendo como antiexemplo a maior autoridade do país e seu discurso de que todos vamos morrer um dia, de que não podemos ser maricas e que se você não for do grupo de risco deve levar vida normal, uma comunicação apelativa é contraponto à irresponsabilidade insensível diante de quase 200 mil mortos. Bolsonaro está errado. Sua narrativa negacionista não pode prevalecer.

De outro lado, pode-se argumentar que a peça estimula o pânico - e que isso passa longe de uma decisão refletida e racional de prevenção. Muito se aprendeu desde o início da pandemia. Sabe-se, por exemplo, que máscaras bloqueiam até 99% das gotículas que transmitem o vírus. Que a principal forma de contaminação é a via aérea e não as superfícies. Que existem grupos mais vulneráveis e que precisam ser protegidos. Que em ambientes abertos e em contatos breves diminui a chance de infecção.

Tudo isso serve para indicar possibilidades a quem deseja, de alguma forma, balancear os enormes custos psicológicos do isolamento social com alguma forma de contato social. Arriscado? Sim. Mas a multiplicidade de fatores envolvidos em cada interação é o que faz com que o risco varie. E aí que, como quase tudo na vida, as opções não se resumem a "tudo" ou "nada", mas a uma linha contínua entre os dois extremos. Em tese, cada um de nós pode escolher um ponto dessa reta para se posicionar.

Políticas de redução de danos ainda são um tabu social. Elas partem do pressuposto de que existem pessoas que não querem deixar de assumir comportamentos de risco, mas que é possível diminuir os malefícios — para a saúde, para a sociedade ou para a economia — associados às atitudes perigosas. São conhecidas, por exemplo, as políticas de redução de danos no uso de drogas injetáveis. Um "kit redução de danos" inclui preservativos, álcool para assepsia, seringas e agulhas descartáveis. O objetivo é prevenir infecções sexualmente transmissíveis como HIV e hepatite.

Raciocínio semelhante inspirou a divulgação de uma tabela de risco para Covid-19 pela Associação de Medicina do Texas (TMA, na sigla em inglês). Atividades cotidianas foram classificadas em uma escala que vai de 1 (risco baixo) a 9 (risco alto). Para mim, que passei seis meses fazendo cooper em uma lateral do prédio, foi importante saber que correr ao ar livre usando máscara é risco 3 (baixo-moderado). Poder voltar a me exercitar em ruas tranquilas da cidade fez bem à minha saúde mental. E também entender que talvez seja o caso de deixar de fazê-lo em um momento de aumento dos índices de contaminação.

Na mesma linha, a cartilha da Fiocruz sobre cuidados nas festas de fim de ano parte do pressuposto de que muitas pessoas vão, sim, se reunir com amigos ou familiares. E sugere recomendações: manter distância de dois metros, preferência por ambiente aberto, não utilização do ar condicionado, álcool gel em abundância, evitar compartilhamento de objetos, reuniões com poucas pessoas (as de grupo de risco não devem participar), de preferência com indivíduos que já convivem juntos. Tudo isso encimado pelo alerta necessário: "nenhuma medida é capaz de impedir totalmente a transmissão da Covid-19".

Manuais como os da Fiocruz e da TMA foram noticiados timidamente pela imprensa. Ainda parece persistir o adágio de que "más notícias são boas notícias" — atraem audiência, vendem, mas não necessariamente ajudam a informar. As campanhas oficiais, talvez por cálculo político ou para evitar serem confundidas com o negacionismo bolsonarista, passaram ao largo desse tipo de orientação. Que exige esperança de que as pessoas serão capazes de tomar boas decisões ao refletirem baseadas em informações corretas. Nos tempos que correm, pode parecer pouco realista. De todo modo, se jornalistas e gestores públicos abdicarem dessa esperança, é melhor fechar a lojinha de uma vez.

Com as incertezas quanto à disponibilidade da vacina, projeta-se um início de 2021 de convívio com o vírus e as restrições por ele impostas. De um lado, o temor justificado do contágio, e a necessidade de medidas preventivas — que variam a cada situação. De outro, um custo psicológico crescente, que precisará ser manejado por vários meses — e provavelmente também no pós pandemia. Seria mais lógico educar a população com a melhor informação possível para que cada um possa decidir, levando em conta sua coletividade, o risco que quer assumir. Por enquanto, tem prevalecido a infantilização do público, e com ela a emergência de sentimentos como a culpa, ao cidadão responsável que se permite uma atitude que talvez nem seja de tanto risco assim, e a irresponsabilidade, a quem já está farto de tudo isso e julga que não há caminho do meio entre o isolamento e a aglomeração. É um terreno fértil para quem lucra com a desinformação, que tem na instrumentalização das emoções uma de suas estratégias mais recorrentes.