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Rodrigo Ratier

Campanha "cone para o MEC": É barato e não atrapalha

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, durante anúncio dos resultados do Ideb e do Saeb 2019 - Cláudio Reis/Framephoto/Estadão Conteúdo
O ministro da Educação, Milton Ribeiro, durante anúncio dos resultados do Ideb e do Saeb 2019 Imagem: Cláudio Reis/Framephoto/Estadão Conteúdo

Rodrigo Ratier

14/12/2020 04h00

O ideal, é claro, seria termos um ministro de carne e osso, com conhecimento técnico, habilidade política, gestão ágil e formação adequada para liderar o Ministério da Educação. Mas o contexto evita enganos. Diante das escolhas pregressas da atual administração, a expectativa de um ocupante do cargo com esses predicados — ou, mais humildemente, um ser humano razoável e de bom senso — equivale ao zero absoluto. Motivo pelo qual vale a pena conceber alternativas que não firam o decoro e a racionalidade, ainda que à primeira vista soem um tanto inusuais. Desponta a conveniência de que, em lugar dos recentes ocupantes do MEC, instalemos no topo da hierarquia da Educação brasileira um altivo e respeitável cone.

Sim, um cone. Um sólido limitado por um plano circular e um vértice para o qual convergem os segmentos de reta que compõem sua superfície. A criatividade humana atribuiu-lhe diversos usos, de diafragma de alto-falantes a recipiente para sorvetes de massa. Adaptado, transforma-se em funil para verter líquidos, sendo especialmente útil como suporte para xixi. Pode-se reverenciar o engenho dessas invenções, embora a proposta em tela diga respeito ao cone "de trânsito", expressão exclusivamente referencial, uma vez que apequena a versatilidade do artefato. O governo Bolsonaro, por exemplo, apresenta oportunidades de atuação ao constructo de polipropileno que ultrapassam, em muito, a sinalização em ruas e estradas.

"Cone não fala" é crítica maldosa e, acima de tudo, equivocada. Nos tempos correntes, silêncio é ouro, sendo improvável imaginar o cone comparando viajantes brasileiros a canibais, como fez Vélez Rodríguez, justificando maquiagem curricular, como Decotelli, associando homossexualidade a famílias desajustadas, como Milton Ribeiro, ou Weintraub quando... bem, basicamente toda vez que abria a boca. Também não há notícia de que seja permitido a um cone possuir conta no Twitter, o que pouparia a população brasileira do embaraço de ter como Ministro da Educação um serial killer da Língua Portuguesa. O reverso da moeda é igualmente proveitoso, uma vez que o cone é surdo. Ficam preservados os tímpanos alheios das discussões envolvendo loas ao criacionismo, defesa do método fônico, delírios morais sobre uma pretensa "ideologia de gênero" e demais exotismos que desde 2019 ocupam espaço cativo no MEC.

"Cone não faz nada" é outro mito, juízo de valor tacanho frente à complexidade conjuntural. Primeiro, porque "nada" é a realidade atual do MEC. Quem é jornalista e busca o Ministério por qualquer razão recebe como devolutiva alguma das seguintes variações: o ministro não vai comentar, não pode atender, não tem agenda ou tu tu tu. É mais elegante e eficiente nem precisar perguntar sabendo de antemão que não haverá resposta. Zeloso, o cone sabe seu papel no pacto federativo. Gestores estaduais e municipais não esperariam em vão por orientações que nunca chegam, parlamentares não aguardariam a participação do Ministério na definição do orçamento e alunos e professores não sofreriam com a ameaça de corte de verba por represália ideológica. Em sua gloriosa inação, o cone tampouco atentaria contra o princípio da legalidade e da boa administração ao, digamos, nomear reitores temporários para as universidades federais.

Que não se esqueça, por evidente, a contribuição cônica aos combalidos recursos públicos. Sendo composto de substâncias inertes, o cone prescinde de necessidades materiais. Quando muito, uma demão de cera para cerimônias pomposas, de modo a ressaltar-lhe a imponência. A cada mês, o erário economizaria 30.934,70 reais do vencimento bruto básico destinado a ministros de estado, afora remuneração eventual e verbas indenizatórias. Multiplique-se por meses, quiçá anos, e revelar-se-á a exemplar austeridade desse — não há melhor palavra para defini-lo — estadista.

Cone não faz sombra. Na verdade faz, mas é diminuta, o que conviria ao sempre inseguro presidente. Convidado por Bolsonaro a fazer papel de cone em suas lives, iria de bom grado, pois é de sua natureza ser um cone. A indiscrição de um possível rubor diante das asneiras presidenciais seria facilmente acobertável com a escolha de um modelo na cor laranja ou vermelha. Tudo somado, estaríamos diante de uma relação ganha-ganha: coadjuvando as pantomimas do capitão, o cone liberaria, de um lado, generais de pijama e de farda da humilhação cotidiana, com a vantagem de, por ser flexível, não precisar se dobrar tanto quanto certos militares de alta patente; de outro, o corpo técnico do MEC estaria disponível para tocar adiante as importantes ações da pasta sem alguém jogando contra o tempo todo.

Todavia não se ignorem as armadilhas. Se o povo perceber as vantagens e demandar a substituição por cones em outros ministérios inoperantes, como economia, saúde e meio ambiente, estaria configurado nepotismo, o que na atual conjuntura talvez seja um mal menor. Há também o risco de o cone pegar gosto pela coisa e ameaçar tomar o lugar do chefe. Deitado em sua cama depois uma extenuante jornada a serviço de seu povo — uma figura de linguagem, pois cone não tem cama e não deita —, o objeto inanimado em polipropileno se imagina com a faixa presidencial. Pensa que o figurinho lhe cai bem, e se põe a matutar sobre o slogan de campanha. É melhor jair se aconestumando.