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Rodrigo Ratier

O jornalismo precisa decidir o que fazer com presidentes mentirosos

Donald Trump e Jair Bolsonaro se abraçam - Alan Santos/PR
Donald Trump e Jair Bolsonaro se abraçam Imagem: Alan Santos/PR
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

16/11/2020 06h39

Assiste-se com misto de pasmo e enfado o último suspiro de Donald Trump à frente da presidência dos EUA. A birra infantilóide e calculada em não reconhecer a vitória de Joe Biden se assenta no portfólio de sempre: teorias conspiratórias, enviesamento, acusações sem provas e invencionismo em estado bruto.

Trump é um mentiroso. Assim como o é Jair Bolsonaro. Ambos fazem da enganação a arma preferencial na arena política. A desinformação cria inimigos e ameaças imaginárias para galvanizar uma base de apoio que se relaciona com suas lideranças por vias emocionais. Do ponto de vista jornalístico, esse jogo apresenta um novo desafio: como lidar com um poderoso que mente dia sim, outro também?

Os manuais são claros quanto à postura diante de uma fonte pouco confiável: deve-se cassar-lhe a palavra. Mas o que acontece quando quem mente é alguém que, em tese, não pode deixar de ser ouvido? Presidentes são também fontes oficiais, detentoras de enorme poder de decisão, de informações exclusivas e de grande impacto social. Para o noticiário, sua escuta é incontornável, e o destaque às suas falas, ainda que sejam descargas de asneiras, deve ser proporcional à importância do cargo que ocupam.

Figuras como Trump e Bolsonaro têm desafiado essas regras clássicas. O primeiro conseguiu a proeza de ter seu lamúrio de mau perdedor interrompido em três das maiores emissoras de TV nos EUA, sob a alegação de que não se poderia continuar transmitindo inverdades. O segundo segue tendo espaço cativo a suas lorotas, ainda que pantomimas escandalosas como o "cercadinho do Planalto" tenham ruído. Em parte pela reação de veículos de mídia, que pararam de dar palco ao festival de ofensas que geram calor ao noticiário, mas nenhuma luz.

É um começo, mas é insuficiente. É defensável, então, que sob certas circunstâncias se silenciar o presidente, como os americanos fizeram com Trump? Ou se trata de uma forma de censura?

É preciso debater a questão. O certo é que Bolsonaro, Trump e outras figuras do tecnopopulismo de direita ganharam notoriedade na esteira do jornalismo declaratório — o tipo de noticiário que apenas registra as falas, por absurdas que sejam. Esse tipo de jornalismo não serve aos dias de hoje. Se um dos pilares da profissão é a busca da objetividade — o retrato preciso de como as coisas acontecem —, então é impróprio que as falácias dos presidentes mentirosos não venham acompanhadas de algum tipo de desmentido na mesma notícia. Repito: não depois, não como um quadrinho ou complemento desimportante, mas na mesma notícia, já na chamada principal.

Erra a imprensa quando publica, sem contraditório imediato, tolices irresponsáveis em flagrante desacordo com os fatos. Opiniões de Bolsonaro sobre a covid-19 — gripezinha, está indo embora, há muita histeria, cura com cloroquina, brasileiro mergulha no esgoto e não acontece nada — foram assim registradas. Quando muito, com um tímido, "sem provas, Bolsonaro afirma...".

É pouco e é um desserviço. Acerta Leonardo Sakamoto quando publica uma manchete como "Bolsonaro mente sobre voto em PEC do Trabalho Escravo para agradar base". O presidente disse que votou contra em 2o turno, mas ele sequer estava presente em plenário. Mentiu. E se mentiu, isso precisa ser dito com todas as letras: "Bolsonaro mente sobre a, b, c?" E o alfabeto que lute para abarcar tanta lorota.

E quanto a "cancelar" a voz presidencial? Com Trump, a imprensa americana perdeu a paciência, e agora suas palhaçadas tendem a ocupar espaços cada vez menores no noticiário. A recorrência na enganação parecer ser um critério importante para distinguir a natureza do ato (deslize eventual ou mentira como modo de vida) e a dose do remédio: desmentido imediato ou retirada, parcial ou total, do debate público. A atitude que já não cabe é, em nome do respeito formal ao cargo de presidente, dedicar espaço incontrastado a quem se vale da mentira para se manter no poder. Ao fazer isso, o jornalismo se afasta de sua função primordial, a de retratar a realidade com a maior fidelidade possível.