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Rodrigo Ratier

Pandemia: estamos sós, a sociedade não existe. Triunfa o neoliberalismo

Na semana passada, manifestação para marcar o Dia da Independência se tornou ato antivacina que pedia ao prefeito de Curitiba tratamento com cloroquina - Eduardo Matysiak/Matysiakfotopress
Na semana passada, manifestação para marcar o Dia da Independência se tornou ato antivacina que pedia ao prefeito de Curitiba tratamento com cloroquina Imagem: Eduardo Matysiak/Matysiakfotopress
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

14/09/2020 04h00

"Vamos sair melhores de tudo isso." Lembra dessa previsão otimista de quando começou a pandemia? Pois é: passados seis meses, já pra dizer, com uma boa dose de certeza, que não vai rolar. O mundo pós-Covid-19 vai ser um lugar pior para se viver. Na verdade, já é um lugar pior — mais inseguro, hostil, solitário. O legado do combate ao coronavírus é catastrófico.

Momentos de crise muitas vezes nos apresentam opções binárias. Foi assim com a pandemia. Poderíamos ter enfrentado o desastre por duas lógicas distintas: a do individualismo ou a da solidariedade. Em raríssimos momentos, o pensamento coletivo parecia prevalecer. Nos comovemos com as mortes na Itália, fizemos crescer o fluxo de doações aos mais vulneráveis, aplaudimos os profissionais de saúde.

Mas as mais de 130 mil mortes de compatriotas já não impressionam, o ímpeto de compartilhar arrefeceu, os aplausos viraram panelaço e, enfim, silêncio resignado. Tudo tão efêmero que não dá nem para caracterizar como jogo de cena: não houve sequer encenação de espírito coletivo. Prevaleceu o egoísmo, e se houvesse um perfil médio do brasileiro no último semestre seria o do cidadão — cidadão, não: engenheiro civil, melhor do que você — que, no início, estocou álcool em gel suficiente para explodir a própria casa; no meio, manteve o emprego em home office mas suspendeu o contrato da empregada doméstica; e agora, no fim (fim?), desfila pelas ruas com máscara no queixo, curte o feriado na praia e não se conforma que as escolas ainda estejam fechadas — um absurdo, porque é preciso tocar a vida.

É tentador descarregar toda a culpa no oportunismo negacionista de Jair e-daí-não-sou-coveiro Bolsonaro. Se o presidente nunca decepciona em personificar o pior do egoísmo e da crueldade, também é certo que milhões de brasileiros escolheram agir na base do "farinha pouca, meu pirão primeiro". Há algo de mais profundo a justificar por que, em nosso campeonato de afetos sociais, a compaixão frequenta a zona de rebaixamento, a muitos pontos de distância de sentimentos como medo, ódio e indiferença.

"Não existe essa coisa de sociedade", argumentava Margaret Thatcher, então primeira-ministra do Reino Unido, numa entrevista em 1987. "O que existe são homens e mulheres, indivíduos, e famílias". A Dama de Ferro sabia que a defesa de mercados livres globalizados se encaixava numa concepção atomista da sociedade. Trata-se de uma novidade na história recente. Em agrupamentos pré-modernos, a defesa de seus membros era tarefa da comunidade. Nas sociedades complexas, esse papel, assumido pelo estado, passou a ser progressivamente desmontado à medida que avançava o consenso neoliberal. A era do cada um por si.

É redutor enxergar o neoliberalismo apenas como sistema econômico. É também um sistema de pensamento, influenciando visões de mundo e ações práticas. Valorizados, atributos como competitividade, mérito, eficiência, capacitação para o mercado são introjetados na vida cotidiana, fazendo crer que mesmo as menores vitórias resultam exclusivamente do esforço individual.

O estágio atual da pandemia é a imagem acabada do triunfo do pensamento neoliberal. Abrir ou não abrir? Na falta de diretrizes coletivas — desistimos do debate, da solução negociada, da busca pelo acordo mínimo —, impera o salve-se quem puder. Cada um é seu próprio infectologista, e os outros estão invariavelmente errados. Fechou demais? Radical! Abriu demais? Negacionista! Adeus aos laços sociais.

E claro, há o fator Bolsonaro, que à sua maneira tosca ecoa o "não existe sociedade" de Thatcher ao dizer "ninguém é obrigado a tomar vacina" e "cada família que cuide do seu idoso". O esvaziamento do interesse público é um projeto de poder, como tem apontado a antropóloga Isabela Kalil. Reforça o neoliberalismo e é por ele reforçado, adquirindo força totalizante. Daí a dificuldade de pensar e agir de outra forma.

"Não há alternativa", profetiza o consenso neoliberal. Felizmente, trata-se de uma mentira. O fracasso do combate à pandemia e de outros problemas urgentes, como o aquecimento global, mostra que não basta que cada um proteja a si próprio: é preciso haver reciprocidade. A catástrofe do novo coronavírus nos lembra que ainda teremos algumas chances, talvez não muitas, de escolher novamente entre a lógica do egoísmo e a da solidariedade. Que caminho vamos trilhar nessa decisão, literalmente, de vida ou morte?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.