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A escola deveria rasgar o currículo de 2020 e refletir sobre a pandemia

Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

17/08/2020 04h00

A esta altura, já está claro que a pandemia do novo coronavírus trará prejuízos à aprendizagem de crianças e jovens. A ONU descreve a situação de 1 bilhão de alunos sem aula como uma "catástrofe geracional", e pede a volta às escolas nos países em que o contágio já está sob controle.

Não custa lembrar que esse não é o caso do Brasil, em que a taxa de transmissão é considerada fora de controle há 16 semanas pelos dados do Imperial College, de Londres. Ainda que se considerem as diferenças regionais quanto ao avanço da doença e enormes desigualdades no acesso à educação online, parece improvável que alguns poucos meses de ensino presencial, para uma quantidade reduzida de alunos, dê conta de correr atrás do conteúdo não lecionado na pandemia. Como já defendi neste espaço, seria muito mais útil tentar garantir aprendizagem melhor e para mais gente na educação remota do que projetar um retorno potencialmente arriscado à saúde pública e que vai, como mostram as pesquisas, dividir pais, alunos e professores, com consequências imprevisíveis para o clima escolar.

Há mais: qual o propósito de seguirmos o currículo padrão neste ano totalmente fora de padrão? Quem dá aulas ou tem filhos percebe a enorme dificuldade de engajar estudantes na aprendizagem online da divisão mitocondrial (as pobres mitocôndrias são sempre convocadas quando se trata de listar coisas chatas), trigonometria, gêneros textuais, legado dos sumérios - a lista é mais longa do que deveria...

Talvez o maior obstáculo da escolarização atual é a perda de sentido no estudo. Sua síntese é a pergunta "para que vou usar isso na minha vida?". Guiar a lista de conteúdos apenas por coisas que têm aplicação prática é empobrecedor, mas é possível avançar. Nos últimos anos, revisões curriculares e mudanças metodológicas têm tentado aproximar "o que" e "como" se ensina do interesse de crianças e jovens.

A pandemia jogou várias camadas de terra nesse esforço, atirando professores e alunos a uma forma de educação pouco conhecida - a online. Nesse contexto, é natural que tenha havido uma espécie de "retorno ao terreno percorrido" - aulas expositivas, mesmo que mediadas pela tecnologia, programação de conteúdos sem grandes inovações etc.

Poderia ser diferente. A pandemia apresenta inúmeras possibilidades de aprendizagem. Da discussão específica sobre formas de contágio à geopolítica na compra de EPIs, da análise de notícias falsas sobre o tema ao tratamento da informação em curvas de novos casos e de óbitos, do caráter cíclico no surgimento das pandemias à comparação com outras síndromes respiratórias, do papel da ciência e de seus limites, dos problemas econômicos à reflexão individual sobre o que é estudar online. Assunto conectado ao momento dramático que estamos vivendo não falta.

Isso para falar apenas nos conteúdos cognitivos. Há outros, relacionados a procedimentos - técnicos como protocolos de laboratório, prosaicos como receitas de bolo, cotidiano como o passo a passo para uma pesquisa confiável na internet - e a atitudes. No terreno da moral e da ética, a pandemia tem apresentado desafios para os quais não temos resposta fácil. Para ficar em um único assunto, o da retomada às aulas: é seguro retomar sem um esquema de testagem em massa e rastreamento? Seria justo que todos pudessem voltar em rodízio ou deveria-se privilegiar algum grupo: quem não tem acesso à internet, filhos de pais que não podem fazer home office, por exemplo?

Como nos lembra Miguel Thompson em artigo na revista Educação, há pelo menos cinco das dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que são pouco ou não avaliadas em exames como o Enem: cultura digital, trabalho e projeto de vida, autoconhecimento e autocuidado, a empatia e a cooperação. Várias dessas competências estão na ordem do dia e podem ser trabalhadas no ensino a distância. Pesquisa do Datafolha mostra que 75% dos estudantes estão tristes, ansiosos ou irritados com o confinamento. A escola deve ajudar a olhar para esses sentimentos, acolhê-los, identificá-los como sintomas sociais do momento que estamos vivendo - e a encontrar caminhos para seguir adiante.

Mesma coisa para o luto: falar sobre as 100 mil mortes é o caminho para aceitar a dor, entender suas causas e evitar que um desastre como esse se repita no futuro. Disciplinas pouco prestigiadas, como Artes e Educação Física, têm papel importante na reflexão sobre esses sentimentos. Privilegiá-las neste momento significa repertoriar os estudantes para lidar com tudo isso.

Em vez disso, a ambição das escolas tem sido "cumprir o que estava planejado". Para quê mesmo? As escolas fariam melhor se ajudassem crianças e jovens a compreender e a lidar com esse ano terrível. Quando se fala em "catástrofe geracional", é preciso lembrar que crianças e jovens que estão hoje nas salas de aula terão uma expectativa de vida quase centenária. É fundamental conceber os próximos anos para recuperar o tempo perdido, mas será que é igualmente importante correr nos últimos meses do ano para cumprir uma lista sem significado para o momento atual? Não são poucos os alunos que, diante da enésima aula na tela do aplicativo, têm se perguntado "para quê?" - isso quando chegam a ligar o computador. Uma corajosa mudança de pauta poderia fazê-los enxergar utilidade nisso tudo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.