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Cancelar pode até funcionar. Mas não é educativo

Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

20/07/2020 04h00

Mais de 150 intelectuais e artistas assinam uma carta aberta contra a chamada "cultura do cancelamento", o boicote a pessoas e empresas com comportamentos considerados inadequados. Polêmica armada. A ideia de que se estaria estimulando censura, intolerância e humilhação mereceu cartas de resposta, com o argumento de que os críticos do cancelamento querem manter privilégios de uma velha ordem. Para onde correr?

O princípio do cancelamento é nobre. Ele seria uma maneira de incidir em comportamentos de uma certa elite (políticos, celebridades, figuras públicas em geral) e torná-la mais responsável pelo que diz e faz. Em poucas palavras, um castigo merecido, e um reparo importante à noção de liberdade de expressão. Não custa lembrar que não se trata de um direito absoluto, mas relativo, que precisa ser avaliado ao interferir em outras liberdades, como o direito à vida. Estar livre para dizer o que se quer - afinal, não existe censura prévia - não significa um salvo-conduto para sair por aí vociferando barbaridades. Declarações racistas, homofóbicas ou que atentem contra a honra podem levar o falastrão ao banco dos réus.

Mas reconhecer a validade do questionamento a uma realidade injusta não significa concordar com o modo como isso é feito. Talvez seja uma verdade incômoda, mas não dá para defender que o cancelamento seja uma ação educativa. Comportamento de manada, punitivismo, execração pública. Há muita coisa na estratégia do banimento do debate que não combina com a tarefa mais nobre da educação: ajudar as pessoas a refletir - olhar para a realidade e para si próprios com algum distanciamento, analisar condutas e, se for o caso, modificá-las.

Caso pessoal: um dos momentos de maior aprendizado da minha vida foi quando um colega de trabalho me chamou em particular para dizer que se sentia ofendido com determinadas piadas que eu fazia. Me senti envergonhado. Pedi desculpas, agradeci. Não foi preciso muita reflexão da minha parte para compreender que ele estava correto. Mudei meu comportamento. Considero que a ação de meu colega foi profundamente educativa.

Me pergunto o que teria ocorrido se eu tivesse sido exposto implacavelmente, diante do pessoal do escritório, como uma pessoa inadequada para nosso tempo. Meu comportamento talvez tivesse mudado, mas seria muito mais por temor que por consciência da inadequação (a diferença entre desenvolver uma moral heterônoma, da obediência por medo de sanção, e uma moral autônoma, a do aceite consciente de uma norma justa e necessária). A vergonha, por outro lado, teria sido multiplicada em muitas vezes, que sabe alimentando sentimentos díspares, mas sempre negativos: culpa, ressentimento, raiva, mágoa, desejo de vingança.

É mais simples aceitar a transformação pela educação quando se trata de relações interpessoais e do contato entre indivíduos que não são pessoas públicas. Mas há no campo do ensino uma máxima de alcance moral: "todos podem aprender". Sim, até mesmo aquele político que acaba de aparecer aí em seu pensamento! Para Educar com "E" maiúsculo, é preciso acreditar nesse aforismo a um só tempo ingênuo e utópico. A educação tem um pouco desses dois traços.

Acredito que o caminho esteja mais na forma do que no conteúdo. É possível dizer coisas duras de um jeito respeitoso. Conversas Cruciais, um livro que me marcou muito, oferece um caminho para essa interlocução. Inicialmente, pontua-se a situação ao interlocutor de forma descritiva, sem julgamentos ("você escreveu num post que as mulheres não devem usar roupas curtas para não incentivar violência sexual"). Em seguida, explicita-se o impacto pessoal da situação ("Na minha visão, é uma ideia machista porque..."). Por fim, pede-se que a pessoa se manifeste ("Como você vê essa situação?"). Porta aberta para um início de debate e de eventual tomada de decisões.

Evidentemente, há casos e casos. Pode-se pensar que, num certo sentido, o que estou propondo é que as vítimas eduquem as pessoas que as agridem. É uma ideia que me causa desconforto e para a qual não tenho uma resposta pronta. O que talvez ajude a construir uma reação seja a proporcionalidade da sanção: há ocorrências graves que demandam uma punição compatível. Para comportamentos reincidentes e prática de crimes com risco direto à vida de outras pessoas, é urgente agir, o que deixa pouco espaço para o gradualismo do diálogo.

Tentando ser otimista - a educação também tem um tanto disso -, acho que essa é uma pequena parte das ocorrências. Há uma larga fatia de expressões inadequadas por deslizes de linguagem e pelo uso de categorias de pensamento que já não fazem mais sentido hoje em dia. Dizer que todos somos produtos de um tempo e de um espaço pode servir como um lembrete de tem gente que ainda não percebeu que o mundo mudou. Com uma abordagem respeitosa, pode perceber - e se transformar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.