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Rodrigo Ratier

Recado pro Ministro: professor com autoridade é professor bem formado

O novo titular do MEC, Milton Ribeiro - Reprodução
O novo titular do MEC, Milton Ribeiro Imagem: Reprodução
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

16/07/2020 19h41

Depois do pesadelo Abraham Weintraub, são próximas do zero absoluto as expectativas para o Ministério da Educação (MEC) sob Jair Bolsonaro. Considerando esse pano de fundo, não deixa de ser um alento ouvir o novo titular da pasta, Milton Ribeiro, defender a escola pública. Filho de professora, genro de diretora, trajetória de escolarização básica na rede pública, bolsista de pós-graduação pelo CNPQ: espera-se que a vivência do ministro recém-chegado reduza as políticas de desmonte e diminua o clima de guerra do MEC com alunos e professores. Se há algum "otimismo" — haja aspas — com o futuro sinalizado pelo discurso de posse, é esse.

O resto é olhar para o passado — um passado que nunca existiu. Ribeiro parte da ideia enganosa deque a escola pública era boa e, pela adoção de "políticas e filosofias equivocadas", ela se deteriorou.

Difícil defender a ideia. Boa para quem? Nos anos 1950, só 26% das crianças e jovens entre 5 e 19 anos estava na escola. Nos anos 1960, 33%; na década seguinte, 54%. A universalização do ensino só veio na virada para o século 21, quando a cobertura no Ensino Fundamental chegou a 95%. São da mesma época os indicadores de qualidade. Antes disso, não há evidências confiáveis.

A degradação de "autoridade docente" — aspas de novo — é assunto polêmico. Há quem defenda que ela derive de avanços sociais que transformaram a escola e outras instituições, como a família. Nas salas de aula, abriu-se espaço para que estudantes manifestem opiniões e tirem dúvidas, construindo o conhecimento. Dessa perspectiva, a força do educador não dimimui, mas seu papel se transforma. Há, porém, quem sinta falta de uma época em que a voz do professor não admitia contraste. Tempos, por exemplo, de apologia à violência física, que o ministro afirma não subscrever ("nunca defenderei tal prática, que faz parte de um passado que não queremos de volta").

A desvalorização do professor está ligada a outros fatores mais concretos que uma suposta mudança metodológica: achatamento de salários, multiplicação de turnos de trabalho, salas superlotadas, aligeiramento das formações.

O subtexto do discurso de Ribeiro é a necessidade de ressuscitar metodologias severas. Seria mais eficaz considerar alguns dos aspectos acima, sobretudo a formação docente. O resgate ao respeito pelo professor não passa por um ensino mais punitivista. A base da autoridade do professor — conquistada, não imposta — é o conhecimento docente. Em duas dimensões: os saberes específicos de sua disciplina e a competência didática. Respeitamos e nos lembramos dos professores bem formados e capazes de compartilhar o conhecimento de forma organizada, instigante, com sentido.

No restante do breve e pausado discurso, o que se viu foi uma postura cautelosa. Pisando em ovos, o novo ministro criticou o desempenho ruim do Brasil nas avaliações internacionais, mas disse que "não estava tudo errado". Afirmou que não se pode desmerecer "grandes educadores que deram legitimas e grandes contribuições", mas não mencionou quem ou o quê. Garantiu atuação no marco do ensino público e laico. Terminou pedindo a ajuda de Deus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.