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Buscando equilíbrio difícil, plano falha ao não ouvir alunos e professores

Governador João Doria (PSDB) durante coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes - Marcello Zambrana/Agif/Estadão Conteúdo
Governador João Doria (PSDB) durante coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes Imagem: Marcello Zambrana/Agif/Estadão Conteúdo
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

24/06/2020 15h28

O plano de retorno às aulas do governo de São Paulo mexe em um dos maiores vespeiros da catástrofe social ocasionada pelo coronavírus. A retomada da educação não interfere apenas em aspectos de saúde e pedagógicos, que devem ser priorizados. É preciso um olhar caleidoscópio para avaliar implicações econômicas - há notícias de demissão em massa e escolas à beira da falência -, trabalhistas - professores e gestores assoberbados com o ensino online - e sociais - como fazem os pais que voltam ao trabalho, mas com filhos que precisam ficar em casa?

Esse equilíbrio difícil não foi atingido na proposta apresentada pelo governador João Doria em coletiva hoje, 24 de junho, no Palácio dos Bandeirantes. Poderia ser pior: diante do boato de reinício das aulas presenciais ainda em julho, que chegou em circular entre educadores nesta semana, o retorno sinalizado para 8 de setembro - condicionado a um ciclo sustentado de 28 dias na fase amarela em todo o estado -, soa menos arriscado. Também é positiva a proposta de que a volta se dê nas redes como um todo. Uma retomada regionalizada desconsideraria a mobilidade no estado e poderia agravar a já elevada desigualdade no ensino em tempos de Covid-19. A possibilidade de um 4º ano do Ensino Médio aponta na direção correta: as defasagens decorrentes da pandemia terão impacto profundo e exigirão uma operação de guerra para que, ao longo de anos, sejam minoradas. Se isso vai sair do papel é uma outra história...

O restante é nebuloso. Algumas premissas do plano são frágeis. Com a testagem ainda em níveis pífios, o país segue navegando às cegas quanto à identificação do avanço da pandemia. Nada indica que em setembro será diferente. Com exceção da atenção à sintomatologia mais evidente - controle de febre e mal-estar -, não houve menção a outras políticas de detecção do coronavírus. A infraestrutura necessária para a reabertura também levanta dúvidas. Se há denúncia de falta de kit de higiene e equipamentos de proteção individual (EPIs) até na área da saúde, como garantir que estarão disponíveis, e em quantidade suficiente, a dezenas de milhões de alunos, funcionários e professores?

O retorno faseado é outro enrosco. O chamado "rodízio" de estudantes - prevê-se liberação por dia de 35% do alunado na fase amarela - é a única alternativa para que os protocolos de afastamento social sejam seguidos nas escolas. Sobram dúvidas: quem serão esses 35%? O que farão os pais dos outros 65%? Haverá compensação possível para os estudantes ainda no isolamento social? Como professores combinarão ensino presencial para um terço dos alunos e a distância para outros dois terços? Como isso vai caber na carga horária atual?

Professores e suas entidades profissionais, alunos e suas instituições representativas ficaram de fora da elaboração do plano. A concertação que resultou na proposta envolveu, segundo o governo de São Paulo, secretarias estaduais e municipais da educação e representantes do ensino privado. O resultado é uma proposta sujeita a questionamentos por parte do chamado "chão da escola". As reações majoritariamente negativas durante a transmissão online da coletiva são uma amostra da insatisfação latente, que poderá se desdobrar em greves e paralisações.

Com escolas em situação financeira ruinosa e enfrentado fuga de alunos, o lobby das particulares parece ter imprimido sua marca na proposta. A retomada sem garantias sanitárias suficientes e com pouco diálogo com quem faz a educação acontecer é uma aposta arriscada para a sobrevivência financeira. Não é o único caminho: estados e entes privados poderiam pressionar o Governo Federal na estruturação de auxílio específico para a educação no enfrentamento da Covid-19. O Ministério da Educação, destroçado pela gestão Weintraub, não criou linha de crédito para superar a crise. E as condições impostas por bancos para socorrer pequenas e médias empresas têm sido um entrave para a maioria das instituições da educação.

Se fossem ouvidos, alunos e professores provavelmente indicariam um problema anterior à reabertura: o ensino a distância não está funcionando. Os problemas vão da ausência de conectividade para um terço dos estudantes, na melhor das hipóteses, à distribuição insuficiente do irrisório vale-merenda (R$ 55 por mês). O sobretrabalho docente é outra preocupação. Sem treinamento e regulamentação, educadores improvisam como podem diante da tecnologia, trabalhando muito mais do que na modalidade presencial.

É mentira que que "a educação em São Paulo não parou", como anunciou João Doria. O que se manteve, parcial e precariamente, excluindo a parcela mais vulnerável dos alunos, foi o ensino. A aprendizagem foi gravemente prejudicada. Planejar a volta amanhã antes de corrigir os problemas de hoje é, talvez, o equívoco mais grave de um plano de reabertura desequilibrado, concebido de cima para baixo e com gente de menos na mesa.

Rodrigo Ratier