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Educação online dá errado mesmo quando dá certo

damircudic/Getty Images
Imagem: damircudic/Getty Images
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

15/06/2020 04h00

A tela de tarefas registra a entrega de 32 dos 40 alunos. É menos ainda do que na tarefa anterior, quando 5 não deram sinal de vida. Na aula remota, em que o professor se apresenta para iniciais de nomes e, na melhor das hipóteses, para fotos estáticas, 27 estão online, depois 21 e, no final, 33 respondem à chamada. Os números são enganosos. Não se pode confiar neles para construir estatísticas de presença e falta. Afinal, o que é estar presente no ensino online? O conceito é frouxo. Pode variar da atenção plena a ligar o computador e ouvir passivamente — ou nem isso — o monólogo do professor. Sempre que faço o login no ambiente de educação a distância, acho que estou lidando principalmente com a segunda alternativa.

Educar é uma ação consciente e voluntária que permite a um ser humano se desenvolver física, intelectual, social, estética e moralmente. Eis a bela definição do filósofo tunisiano Olivier Reboul no clássico "A Filosofia da Educação". Para que essa possibilidade esteja ao alcance de todos, é preciso garantir três coisas. A primeira — acesso — é fácil de entender: todo mundo precisa estar na escola. A segunda — qualidade —, também: o ensino precisa ser consistente e levar à aprendizagem. Já a terceira — equidade —, só bem recentemente começou a ser focalizada: é preciso dar a cada um as possibilidades de desenvolver o máximo de suas potencialidades.

Garantir equidade é zelar para que nenhum aluno, nem mesmo o mais desafiante deles, fique para trás. A atenção é muito maior na Educação Básica, onde o "olhar para todos" está por trás da redução dos níveis de abandono escolar e distorção idade-série. Conforme se avança na escolarização, a equidade vai aos poucos sumindo do radar, até que no ensino superior vigore a máxima cínica de dar aula "só para quem está a fim". O resultado, óbvio, são índices pornográficos de evasão, mascarados pela culpabilização do aluno. Quem mandou "escolher o curso errado"?

Mas vamos considerar um cenário ideal: imaginemos um universo em que cada educador elege como prioridade a tarefa de garantir que todos aprendam. Continuemos com o otimismo: as coisas vão indo bem e os estudantes, à sua maneira, vão avançando. Aí, um vírus perigoso e resiliente aparece e golpeia a trajetória virtuosa. Escolas são fechadas e, na ausência de um comando central, vigora o cada um por si: parte interrompe as aulas, parte segue para o ambiente online.

Sigamos com uma alternativa favorável: ocorre a migração para a educação a distância. Pense que todo mundo tem acesso à internet de boa qualidade. Vamos trabalhar? Primeira aula: 10 alunos não fazem login. Dos 25 presentes, 20 sequer se manifestam. Trabalho coletivo: dois grupos não entregam a tarefa e não dão satisfação. Hora da prova: algo aconteceu com quatro estudantes que vão zerar o semestre. Parece familiar? Sim: voltamos à situação do primeiro parágrafo.

No quesito equidade, a educação a distância, mesmo quando dá certo, dá errado. Mesmo o mais abnegado professor e a mais atenta equipe pedagógica não conseguem lidar com situações tão conhecidas da educação presencial: o aluno que não vê sentido nas aulas, o que se deprime e pensa em desistir, o que não dá conta da quantidade de tarefas e aquele que tenta uma, duas, três vezes, mas não entende e abandona.

Insira essas ocorrências no precário contexto brasileiro — internet capenga, soluções remotas improvisadas, professores estressados com o acúmulo de tarefas e a pressão da migração digital, pais igualmente cansados e nem sempre disponíveis. A pandemia nos legará uma multidão de alunos ficando para trás. Pensar no que faremos com eles hoje é uma tarefa para ontem.

Se no ensino tradicional esses alunos invisíveis ao menos possuem uma concretude física e uma presença que muitas vezes nos incomoda, no ambiente virtual nem isso ocorre. São apenas um nome que nunca aparece, um avatar que jamais interage. Sua ausência não nos perturba, quando na verdade não deveria nos deixar dormir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.