PUBLICIDADE
Topo

Distanciamento social virou pobre morrendo lá longe

Cadeira de praia e água de coco em plena quarentena na praça ao lado de sede do governo de São Paulo - Felipe Pereira
Cadeira de praia e água de coco em plena quarentena na praça ao lado de sede do governo de São Paulo Imagem: Felipe Pereira
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

06/05/2020 04h00

A relação é direta: conforme naufragam as quarentenas Brasil afora, o novo coronavírus encontra espaço para seguir seu caminho natural — e assustador — de contágio.

A interdependência ganhou forma de gráfico didático na mais recente live do biológo Atila Iamarino. Exasperado, o mais célebre divulgador científico da Covid-19 analisa a curva brasileira de casos. Estivemos a um tostão de achatar a curva. Mas a turma desistiu de ficar em casa, e a curva tomou rumo diferente, embicando para cima.

A desistência tem múltiplos significados. Há a já conhecida desistência da responsabilidade. Aprende-se basicamente pelo exemplo, e o que vem de cima é o vexame técnico e ético que nos envergonha perante o mundo. Seus símbolos concretos são as infames caravanas da morte e as confraternizações dominicais do presidente e seus fiéis, celebrações do único projeto deste governo: o golpe de Estado.

Há a desistência da solidariedade. Avoluma-se a galera dos espertos, das aglomerações no calçadão da Barra, no Rio de Janeiro, ou do jogging diário na avenida Sumaré, em São Paulo. Aproveitam a cidade com risco mínimo às custas dos otários — nós, os confinados, que somos menos especiais do que eles.

E há quem desistiu de esperar. Nas favelas e periferias, a ajuda tarda e falha. As imagens dos subúrbios e comunidades furando o isolamento com churrascos e bailes funk são anedóticas. As pessoas saem à rua é em busca da sobrevivência. Quando há miséria e fome, o risco hipotético de adoecer parece menos grave que a ameaça diante dos olhos. Entre morrer agora ou morrer depois, de um troço misterioso e invisível que o presidente diz que não passa de um resfriadinho, muita gente fica com a segunda opção.

O resultado antecipado em prosa e verso está aí: se o isolamento falhou, o distanciamento social no Brasil continua sendo o mesmo de sempre. De um lado, há sofrimento, sim — afinal, estamos diante do mais brutal desafio de nossa gerações, como se cansou de dizer. Mas a travessia é mais confortável e segura — e as chances de sobrevivência são muito maiores. As previsões de ocupação de UTIs em hospitais particulares são um bom indicador. Não haverá superlotação.

De outro, na rede pública, hospitais repletos, ausência de testes, colapso iminente na maior parte do país. Entre as classes populares vigora a roleta russa com a vida humana. Sem novidade. É nas periferias que ocorrem a maior parte das 60 mil mortes violentas anuais do Brasil. É delas, também, que partirão em quantidade dolorosamente grande os caixões lacrados para enterro em covas rasas.

Nos anos 1970, o economista Edmar Bacha cunhou o termo Belíndia para descrever um país — o nosso — composto de uma pequena e próspera Bélgica e de uma imensa e miserável Índia. Quase meio século depois, quase nada mudou. Mortes caem nos bairros ricos e estão em plena ascensão nos mais pobres, estampa a manchete do UOL. A Covid-19 é uma no condado de Higienópolis e outra na chapa quente da Brasilândia. Ou na sala rosa do Hospital 28 de Agosto, na ribeirinha Manaus — inferno onde mais de 60 pessoas agonizam até a morte, sem atendimento médico e distante da esfera pública dos "formadores de opinião".

Aprofundamento da distopia: enclaves "Covid-free" nas zonas ricas, em que moradores periféricos seriam admitidos apenas mediante presença de anticorpos. Um "passaporte de imunidade" conferiria a milhões de trabalhadores o privilégio de, finalmente, voltar a limpar nossas privadas. De tanto ouvir absurdos criminosos vociferados em perdigotos, não me espantaria se alguém defendesse mais este.

Desarme do pesadelo: ainda é tempo de reverter, ao menos em parte, a iniquidade no combate à pandemia. A discussão sobre a fila única para a gestão conjunta das UTIs públicas e privadas merece atenção. Quase 15 mil vidas poderiam ser salvas com uso equilibrado dos leitos que ficarão ociosos na rede particular, segundo estudo interinstitucional.

A solução definitiva para evitar a judicialização de leitos — que já está ocorrendo, e sem contrapartida aos hospitais privados — é a aprovação de leis parlamentares, caminho indicado pelo STF. Nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional, há diversos projetos em tramitação, que poderiam, após negociação, estabelecer convênios com taxas de remuneração e de ocupação adequadas para cada instituição. Buscaria-se um consenso semelhante ao ocorrido na aprovação da renda básica emergencial.

A dificuldade tem sido encaixar os PLs nas pautas de votação. O site Vidas Iguais reúne duas iniciativas para pressionar o poder público a aprovar a fila única. Para garantir o acesso universal e igualitário a todos os pacientes com casos graves da doença que necessitem de leitos de internação e terapia intensiva por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Há uma lista dos PLs à espera de análise (além do único caso aprovado, em Minas Gerais) e um manifesto de apoio às iniciativas. Com a palavra, a sociedade — e os presidentes das instâncias do Legislativo — para reduzir essa distância social.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.