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No WhatsApp, bolsonaristas se decepcionam e questionam voto em 2022

Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

24/04/2020 16h21

O pedido de demissão de Sergio Moro convulsionou os grupos de apoio a Jair Bolsonaro no WhatsApp. Por volta do meio-dia, logo após a coletiva do então ministro da Justiça, começaram movimentações pouco vistas no cotidiano do "Zap" bolsonarista. De uma lado, integrantes abandonando grupos, participação de uma maioria antes silenciosa e volume relevante de críticas à atitude do presidente. De outro, o dos apoiadores, defesa intransigente de Bolsonaro, expulsão de "infiltrados" e as primeiras tentativas de discursos desabonadores do até então aliado inseparável.

Trata-se de um cenário inédito nas comunidades bolsonaristas no WhatsApp. Acompanho esses grupos desde 2018. Monitoro diariamente 29 deles. Como já descrevi aqui em outra oportunidade, seu modo de operação é bastante uniforme: "Há poucas mensagens autorais. Numa medição de 24 horas que realizei em fevereiro, 76% delas eram encaminhadas ou copiadas. Muita gente está nos grupos, mas pouca gente escreve — na mesma aferição, 50% das mensagens foram enviadas por menos de 2% dos usuários. Postagens contrárias ao presidente são virtualmente inexistentes. Na sondagem, de um conjunto de 1.320 postagens, apenas uma única mensagem trazia crítica".

A queda de Moro mudou rapidamente o panorama. Entre os novos críticos, o tom é de revolta e decepção com o namoro do presidente com a "velha política". Várias postagens falam em "tiro no pé", desgaste e perda de credibilidade do governo. A demissão não seria o problema, mas sim a razão que a motivou - a alegada interferência política na troca de comando na Polícia Federal.

Para diversos usuários, a ingerência sinalizaria uma suposta tentativa de preservar os filhos de uma investigação da PF - que teria "todas as provas" para uma incriminação. A atitude foi lida como hipocrisia do presidente.

A taxa de saída de integrantes dos grupos também está muito superior às habituais. Enquanto para outros, já é 2022 - e Moro, candidatíssimo.

No meio do caminho entre neocríticos e paleoapoiadores, há o grupo dos incrédulos, que tenta encontrar alguma explicação lógica para a saída do ministro. Circula a versão que aponta para uma "estratégia" de Bolsonaro: Moro teria sido demitido taticamente para que o ex-chefe pudesse indicá-lo ao STF. Não há, entretanto, qualquer requisito nesse sentido.

Uma vertente desse agrupamento espera pela palavra do presidente para dar sentido à decepção - e também pela divulgação, na véspera, de que a demissão não passaria de boato.

Na outra ponta do espectro, os apoiadores incondicionais de Bolsonaro tentam evitar que se perca o controle dos grupos. A maioria das comunidades traz lista de regras que proíbe críticas ao presidente. Os moderadores têm se dividido entre pedidos de calma, a exclusão de opositores (chamados de "infiltrados") e o "pede pra sair" de quem não concorda com o presidente.

Os bolsonaristas-raiz apontam a "covardia" de Moro - "alcaguete", em algumas postagens -, que não apenas teria traído Bolsonaro, mas saído atirando ("vomitou coisas que eram para ficar lá"). E relembram que o atual presidente é que foi eleito ("Bolsonaro não preciso dele para ganhar"), esfaqueado - e, segundo o raciocínio, "caluniado".

A "passividade" do ministro ganha registros pouco lisonjeiros. Ele não "teria conseguido fazer nada", não teria impedido "a saída de presos perigosos" durante a pandemia e "não atuou contra governadores e prefeitos". A troca de Moro por um general para "fazer andar isso" é vista como benéfica. Critica-se, ainda, a falta de apoio público do ex-ministro ao presidente na crise do coronavírus, sinal de falta de "patriotismo".

Uma linha de ataque um pouco mais elaborada, possivelmente emanada de fonte central - há diversas postagens com o mesmo teor que constam como encaminhadas - aponta para a inação da Polícia Federal frente à investigação da facada em Bolsonaro. A teoria implica uma suposta omissão do diretor Maurício Valeixo, pivô da crise que culminou na demissão de Moro. Bolsonaristas insinuam que ele estaria escondendo algo após apuração da corporação ter concluído que Adélio Bispo agiu sozinho e sofria de transtornos mentais.

Há, por fim, quem relembre a proximidade do ex-ministro com o PSDB, sinal de "ingenuidade" frente à "guerra" travada pelos bolsonaristas: contra o Foro de São Paulo, contra o globalismo, contra a ameaça comunista — de quem Moro, agora, seria aliado.

Rodrigo Ratier