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Quarentena com criança em casa, mês 2: o que dá pra melhorar

A fotógrafa americana Danielle Guenther decidiu fazer um ensaio mostrando como fica a vida do casal após a chegada dos filhos. Bem diferentes das imagens normalmente postadas nas redes sociais, em que todos aparecem arrumados, limpos e felizes,  as fotos mostram os pais cansados, a casa desarrumada e os filhos fazendo bagunça - Danielle Guenther/Reprodução
A fotógrafa americana Danielle Guenther decidiu fazer um ensaio mostrando como fica a vida do casal após a chegada dos filhos. Bem diferentes das imagens normalmente postadas nas redes sociais, em que todos aparecem arrumados, limpos e felizes, as fotos mostram os pais cansados, a casa desarrumada e os filhos fazendo bagunça Imagem: Danielle Guenther/Reprodução
Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

20/04/2020 04h00

Com as escolas fechadas na maioria dos estados desde 23 de março, adultos e crianças partem agora para o segundo mês de intensa convivência familiar. Convenhamos: bota intensidade nisso — do encantamento ao caos, do aprendizado ao tédio, do companheirismo à birra, da energia pelas novas descobertas ao esgotamento pelo acúmulo de tarefas. Sensações extremas vividas às vezes sem escalas, às vezes em repetição infinita. A virada simbólica no calendário da quarentena representa uma chance de olhar para o que não está tão ajustado. Como o assunto da coluna é educação, cabe perguntar: no próximo mês, o que dá para melhorar nessa seara?

O ponto zero é conhecido, mas nem sempre posto em prática. "A palavra é rotina. Uma rotina saudável", resume Roberta Panico, pedagoga e diretora de desenvolvimento educacional da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo. Por "saudável", Roberta entende sequências em que os tempos sejam diversificados e estejam bem definidos: hora para brincar junto, para brincar sozinho — e hora de respeitar o trabalho dos pais. "Nesse momento, é preciso conversar com as crianças que estamos lá, mas ocupados. É importante que a rotina contemple momentos para brincar sozinho. O equilíbrio dessas atividades é que vai tornar a convivência mais agradável", explica.

Proporcionar atividades autônomas é o grande desafio. As telas, atalho tentador, não precisam ser riscadas do cardápio. Mas vale repensar o uso. "Dá para entender o recurso a elas. É prático, as crianças ficam sozinhas e atentas. Mas é preciso limitar o tempo diante da TV, tablet e celular", defende Roberta. Para a pedagoga, o contato com desenhos animados, vídeos e games está longe de ser a única que pode ser feita sozinho. Limita as possibilidades de fazer coisas diferentes e de se autoconhecer. "Para ocupar o espaço de outra forma, vale pensar no possível em vez do ideal. Se não der para garantir diversidade de atividades todo dia, olhe para a semana: o que pode ser oferecido, digamos, uma ou duas vezes no período?"

Exemplos: leitura silenciosa, desenho com giz e lápis em em suportes diversos, do papel ao azulejo; pintura com diferentes tintas e suportes (vale até o próprio corpo); cantos de faz de conta, com utensílios de cozinha, escritório, quarto etc. "Isso vale tanto para crianças que estão tendo aula quanto para as que não estão", afirma Roberta. "Vale olhar para a casa e ver se os materiais para essa experimentação autônoma estão disponíveis quando a criança quiser. Às vezes, reclamamos que os pequenos demandam demais, mas nos esquecemos de oferecer alternativas. Um potinho de caneta em cima da mesa, por exemplo, é possibilidade de desenhar durante boa parte do dia", aponta.

Em resumo: como as crianças estão aprendendo (para o bem e para o mal) a todo momento, a casa também pode ser um espaço de aprendizagem. É natural que "casas que ensinam" sejam lugares um pouco mais bagunçados e barulhentos do que muitos de nós gostaríamos. Uma caneta perdida ali, sujeira de cola aqui, uma tinta naquele sofá recém-lavado… Vale a comparação com a escola: uma sala quieta e sem interação pode não ser uma sala onde se aprende, mas simplesmente um espaço em que as crianças têm medo de se manifestar. "Uma casa impecável limita a possibilidade das crianças", diz Roberta. Evidente que não se defende que seu doce lar se transforme num escombro de brinquedo e material de papelaria. "Os moradores da casa, pequenos incluídos, precisam entrar em consenso de que em qual momento esse espaço vai estar muito bagunçado porque a atividade exige, e em que momento todos vão se juntar para organizá-lo", opina.

Ensino e aprendizagem seguem fonte de dúvidas na quarentena. Roberta é taxativa: "Pai e mãe não substituem professor. Os papéis continuam os mesmos — o dos pais é apoiar e construir uma rotina de atividades das crianças em casa." A pedagoga diz que é hora de tirar dos ombros a responsabilidade de ensinar e aceitar que essa é uma tarefa complexa que exige formação específica. O que não significa que o papel da família seja supérfluo. "É ajudar o filho a organizar sua dúvida, a buscar onde possa resolvê-la, a testar se é verdade ou mentira, se posicionar diante das questões. É mais por aí do que de querer ensinar o conteúdo", argumenta.

Com a adaptação à realidade de isolamento já equacionada, pode sobrar mais tempo para outro período essencial — o convívio de qualidade entre adultos e crianças. Novamente, são ricas as possibilidades (vamos destacar aqui as que estejam longe das telas): cozinhar juntos, fazer torneios de jogos, discutir o noticiário e a lição de casa, escolher novas músicas para ouvir… "Um dos ganhos desse período difícil está em descobrir possibilidades de convivência. É uma boa estratégia incluir na rotina semanal esses respiros", diz Roberta.

E o início do segundo mês de quarentena marca a passagem de um período… que não se sabe quando vai acabar. Por isso, a angústia precisa ser acolhida — venha de onde vier, dos pequenos ou dos adultos. "Nesse momento, a gente precisa ser muito franco com as nossas emoções e com as emoções do outro. Precisamos nos permitir dizer: 'não estou bem hoje'", afirma a pedagoga. "As pessoas vão saber que precisam ser mais cuidadosas nas relações naquele dia. Entender e comunicar isso é importante. Na quarentena, quanto mais francas as relações, melhor", finaliza.

Rodrigo Ratier