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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bienal de SP: impulso para nossas almas

Obras de Sofia Borges e Alejandro Corujeira durante a itinerância da 33ª Bienal de São Paulo - Nilton Santolin / Fundação Bienal de São Paulo
Obras de Sofia Borges e Alejandro Corujeira durante a itinerância da 33ª Bienal de São Paulo Imagem: Nilton Santolin / Fundação Bienal de São Paulo

Rodrigo Hübner Mendes

03/09/2021 10h05

Minha primeira exposição de arte aconteceu no quintal da minha casa, quando eu tinha 6 anos. Passava as tardes pintando paisagens, até que a minha mãe resolveu fazer uma mostra na minha festa de aniversário. Teve curadoria, iluminação, projeto cenográfico. Enfim, tudo que uma exposição de gente grande exige.

Mal podia imaginar que minha trajetória profissional cruzaria, por um longo período, esse território. Durante 15 anos, liderei uma escola de artes e visitar a Bienal de São Paulo era sempre um acontecimento. Ficava nítido que vários alunos cresciam muito quanto ao seu processo criativo após terem respirado aquele ambiente sempre muito estimulante. Ontem, tive o prazer de reviver essa experiência ao apreciar a abertura de sua 34ª edição. Há muitas razões que a fazem um evento muito especial para o público, para os artistas e para a cidade.

A primeira delas é o nome escolhido: "Faz escuro, mas eu canto" é título de um livro do poeta amazonense Thiago de Mello e verso de seu poema "Madrugada camponesa". Sem dúvida, conversa bastante com os tempos que vivemos e com a capacidade que temos de achar caminhos, mesmo quando enfrentamos profundas adversidades e consequente apreensão.

Outro grande destaque é o trabalho de curadoria, cuidadoso e refinado, que foi capaz de traduzir a contemporaneidade, suas contradições e seus contrastes em mais de 1.100 obras de 91 artistas de todos os continentes. Há, entre eles, 9 participantes de povos originários - é a Bienal com a maior participação de artistas indígenas de toda a história do evento: 10%.

Um aspecto que vale comentar é o cuidado com a acessibilidade. Foram planejadas diversas ações nesse campo, como a criação de um audioguia inclusivo, narrado por Marília Gabriela, Adriana Couto, Sara Bentes e André Trigueiro. Este guia contempla 20 obras de arte e objetos da exposição, de todos os andares do Pavilhão, e será disponibilizado também numa versão em Libras (Linguagem Brasileira de Sinais).

Experiências culturais nos colocam em contato com a essência do humano. Com nossa necessidade de inventar e interferir. Trabalho com educação há 30 anos e, muitas das transformações mais profundas que testemunhei beberam desta fonte poderosa, que é nosso acervo de cultura, de poética, de inteligência. Além disso, a Bienal dialoga muito com a ideia de uma sociedade inclusiva. Ambas pressupõem um questionamento dos padrões, a criação de espaço para aquilo que é diferente, que destoa, e a derrubada das barreiras que estão enraizadas em nosso modelo mental. Mais do que uma mostra que nos transforma, a Bienal é uma catalisadora da inclusão. Vamos deixar ecoar os versos de Thiago de Mello:

"Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL