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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

COI muda o jogo ao repaginar lema Olímpico

A chama foi entregue a tenista Naomi Osaka por crianças que participaram da cerimônia de abertura - HANNAH MCKAY/POOL /AFP
A chama foi entregue a tenista Naomi Osaka por crianças que participaram da cerimônia de abertura Imagem: HANNAH MCKAY/POOL /AFP

Rodrigo Hübner Mendes

30/07/2021 06h00

Em 1896, renasciam da Antiguidade os lendários Jogos Olímpicos, cuja primeira edição da era moderna ocorreu em Atenas. Seu idealizador, Pierre de Coubertin, era um pedagogo e historiador francês que vislumbrou a promoção de um evento internacional periódico, voltado à excelência esportiva, conforme ocorria na Grécia Antiga. Como forma de encorajar os atletas a atingirem o seu melhor durante as competições, Coubertin introduziu ao Movimento Olímpico o lema "Citius, Altius, Fortius" (Mais rápido, Mais alto, Mais forte).

Na última sexta-feira, durante a cerimônia de abertura dos jogos em Tóquio, chamou a atenção do mundo uma mudança decorrente do reconhecimento por parte do Comitê Olímpico Internacional (COI) de que a solidariedade e o poder de união do esporte devem estar acima do aspecto competitivo inerente às Olimpíadas. O novo lema passa a ser "Citius, Altius, Fortius - Communiter" (Mais rápido, Mais alto, Mais forte - Juntos). De acordo com Thomas Bach, presidente do COI, "a solidariedade alimenta nossa missão de tornar o mundo um lugar melhor através do esporte. Só podemos ir mais rápido, só podemos chegar mais alto e só podemos nos tornar mais fortes permanecendo juntos - em solidariedade". O que parece ser apenas um detalhe é, na verdade, uma transformação histórica da lógica sobre como pensar os jogos.

Em 2013, eu fui convidado pelo UNICEF a criar um projeto que aproveitasse o período dos mega eventos esportivos no Brasil para que as escolas repensassem a forma de explorar a Educação Física. A ideia era que a iniciativa promovesse uma substituição da abordagem voltada unicamente à competição e à formação de atletas, ainda predominante nessa disciplina, pelo foco na participação de todos os estudantes. Como resposta, desenvolvemos um programa de formação de professores que oferecia ferramentas para que criassem aulas baseadas na premissa de que todos fossem incluídos, independentemente de suas características físicas, sensoriais, etc. O "vencer" foi trocado pelo "se divertir", o "competir" pelo "conviver". O projeto ganhou o nome de "Portas Abertas para a Inclusão" e já atendeu a mais de 100 mil educadores, de todos os estados do Brasil. Alunos que antes eram dispensados, como crianças com deficiência ou obesidade, passaram a participar não só da realização, como também da elaboração desse novo tipo de aula.

O novo lema do COI traz à tona um pouco desse espírito. É claro que a motivação imediata para a mudança é a pandemia e suas restrições ao convívio presencial das pessoas. Muitos atletas precisaram treinar de forma isolada e enfrentar adversidades imprevistas para desembarcar em forma na Terra do Sol Nascente. No entanto, essa relação ao momento de emergência que vivemos não muda a relevância do passo dado. Vale citar que Coubertin também usava, informalmente, o lema "O mais importante não é vencer, mas participar". Quem sabe possamos em futuras edições constatar uma maior aproximação entre Olimpíadas e Paralimpíadas, conforme propus em 2016, durante um evento no Japão, ao lançar a ideia de se manter a chama acesa no período entre os dois jogos como um símbolo de união entre os seres humanos (projeto "One Flame").

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL