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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

João Paulo e o espírito cívico de que precisamos

Diretor da Escola Estadual Dr. Pompílio Guimarães distribui alimentos nas casas de estudantes - Divulgação/E.E Dr. Pompílio Guimarães
Diretor da Escola Estadual Dr. Pompílio Guimarães distribui alimentos nas casas de estudantes Imagem: Divulgação/E.E Dr. Pompílio Guimarães

Rodrigo Hübner Mendes

30/04/2021 06h00

Desde agosto do ano passado, João Paulo, diretor da escola estadual Dr. Pompílio Guimarães, em Piacatuba (MG), vai pessoalmente até a casa dos alunos entregar kits de alimentação e de material escolar. Sua peregrinação é feita na companhia de duas professoras da escola, um motorista da prefeitura local e um voluntário da comunidade.

O barulho da kombi que transporta os kits é ouvido à distância pelas pessoas. Antes mesmo do veículo ser estacionado em frente às casas, os moradores já estão à espera de João. "Pai, mãe, avó, tio, tia, quem está em casa sai e nos espera na porta. É indescritível o que acontece. Há pessoas que se emocionam ao me ver, há quem se revele aliviado e conte que a comida chegou na hora certa, porque o armário já estava vazio. Crianças saem pulando pela rua com uma bandeja de frango nas mãos", comenta o diretor. Os kits de alimentação contêm entre 10 e 15 itens, geralmente não-perecíveis e escolhidos a dedo, de acordo com orientações nutricionais. Os recursos para a compra são públicos: parte provém do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e parte do estado.

Embora as outras escolas da região tenham optado por pedir às famílias que busquem os kits, a decisão de João Paulo foi de ir até elas para não correr o risco de causar aglomeração. Ao mesmo tempo, ele enxergou em meio à pandemia uma oportunidade enriquecedora para a escola: ver a realidade dos estudantes de perto e fortalecer seu vínculo com as famílias. O diretor, que foi aluno e, posteriormente, professor da Pompílio Guimarães, explica que ao chegar na casa de cada aluno é se que entende com clareza o que acontece durante a crise na vida das pessoas.

A reação das famílias ao receber a escola em casa às vezes vai além da troca de olhares e das falas embargadas pelo contentamento de saber que a instituição de ensino segue como um porto seguro social para as crianças. Num dia tumultuado, marcado por muitas reuniões e com o compromisso de fazer as entregas para quase 90 famílias, João Paulo passou rápido pelas residências. Cumprimentava todos, fazia a entrega, subia na kombi e saía em disparada. No fim da tarde, quando chegou em sua casa, foi surpreendido com um café servido à mesa. A família de um aluno, visitada horas antes, esperando que ele entrasse e se sentasse à mesa com todos, decidiu levar a refeição até ele, já que a entrega aconteceu na pressa.

Sentir-se como agente de uma política pública que reduz o risco alimentar de tantas famílias nesse momento desafiador que atravessamos tem um valor inestimável para João Paulo. Ao dizer, com tranquilidade, que está fazendo somente o que tem obrigação de fazer como um representante da educação brasileira e de uma escola pública, o diretor nos presenteia com um poderoso exemplo do espírito cívico que, mais do que nunca, precisa orientar nosso país.

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Imagem: Arte/UOL

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL