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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O déjà vu diário da irracionalidade

Getty Images
Imagem: Getty Images

Rodrigo Hübner Mendes

26/03/2021 04h00

Ler o noticiário sobre nosso país nos dá a sensação de uma espécie de déjà vu diário de absurdos, um feitiço do tempo promotor de repetições irracionais. Na última semana, a jornalista Renata Cafardo foi muito feliz ao abordar o amplo e diversificado conjunto de mudanças que estão sendo promovidas pelo MEC e que representam, mais uma vez, comprometer conquistas no já sofrido campo da educação pública (Passam a boiada no MEC, 21 de março de 2021).

Para exemplificar, nosso Ministro da Educação tem declarado que os estudantes brasileiros demonstraram durante a pandemia que é possível um bom desempenho de aprendizagem, mesmo quando privados das aulas presenciais, ignorando os relatórios que retratam altos índices de evasão escolar e aumento da distorção idade/série. Com isso, propõe que o homeschooling se torne parte do nosso panorama nacional, o que significa institucionalizar a educação domiciliar, aquela em que a família educa seus filhos, dispensando-os da escola.

Como bem apontado por Renata, os descalabros perpassam alterações na forma como as avaliações nacionais são geridas, no conteúdo da BNCC e nas regras de aquisição dos materiais didáticos encaminhados às escolas. Quanto a esse último quesito, a proposta é que temas relacionados ao respeito à diversidade não sejam mais exigidos pelos editais de compras de livros efetuadas pelo MEC.

Vale nos perguntarmos como será a vida dos estudantes, caso esse conjunto de perdas seja concretizado. Como pensar no desenvolvimento integral da criança ou do adolescente sem que haja convívio, interação, troca? Como esperar que competências imprescindíveis à vida em sociedade sejam estimuladas em silos residenciais? Estamos dispostos a testemunhar a naturalização do bullying como uma realidade que não precisa ser discutida por meio de conteúdos curriculares? Podemos apostar na hipótese de que a motivação dos alunos não será impactada pela desgastante rotina de aulas em suas casas? A pandemia tem demonstrado que a escolarização em casa, mesmo quando sob responsabilidade da escola, é falha, provoca sobrecarga nas famílias, prejudica a aprendizagem e aprofunda as desigualdades.

Um país cuja a história da educação contempla pensadores internacionalmente admirados, como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, precisa ser capaz de fazer valer nossa capacidade de criticar a realidade, resgatar o desafiador diálogo e construir consensos para que o déjà vu diário da ignorância se transforme em pretérito mais que imperfeito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL