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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lockdown não se aplica aos nossos sonhos

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Imagem: iStock

Rodrigo Hübner Mendes

19/03/2021 04h00

Em 1970, Akira Kurosawa lançou o filme Dodeskaden. Até então, os críticos de cinema sempre questionavam os motivos que o levavam a produzir somente filmes em preto e branco. E ele sempre respondia que usaria a cor no dia em que esse elemento fizesse de fato parte da narrativa.

Dodeskaden, sua primeira obra em cores, explora situações de sofrimento de diversos moradores de uma comunidade extremamente carente na periferia de Tóquio. Um deles vivia com seu filho na carcaça de um carro abandonado, numa condição de absoluta privação. Mas todos os dias, o homem se sentava à frente daquela carroceria e mostrava algo ao filho. "Está vendo aquela casa?" Não havia, de fato, casa alguma, mas o homem ia descrevendo uma edificação, detalhe a detalhe e, à frente dos dois, iam aparecendo as mais belas mansões, palácios, obras refinadas de arquitetura. Ao fim de cada descrição, aquelas obras sumiam, mas o sonho estava estabelecido.

Ainda não temos como dimensionar com precisão o amplo espectro de efeitos colaterais gerados pelo amargo remédio do isolamento social, ainda necessário. No âmbito da saúde mental, por exemplo, a bula tem várias páginas. Fobias, insônia, depressão aparecem como a ponta do iceberg. Não me atreveria a aprofundar a temática diante da ilha que habito. Faço parte da minoria cuja circunstância e o segmento profissional permitiram que eu desse continuidade ao trabalho, mantendo minha cabeça dedicada ao meu ofício. Qual será a envergadura da angústia de quem se vê obrigado a permanecer em casa e impedido de exercer sua profissão?

No entanto, me arrisco a palpitar sobre uma das competências que nos diferenciam como espécie. Imaginar algo que ainda não existe é uma habilidade desfrutada por todo ser humano, independentemente do berço em que nasceu. Inúmeros pensadores exploraram essa constatação desde os primórdios da civilização. Mais recentemente, Yuval Harari abordou com muita propriedade a hipótese de que prosperamos perante outros seres do gênero Homo graças a tal aptidão, associando-a à capacidade de mobilizarmos grupos a partir de ideias inventadas.

Poder sonhar permitiu que nossa espécie tenha moldado o planeta. Seja qual for o balanço entre conquistas ao bem comum e atos de brutal destruição, é inegável que fomos capazes de projetar e concretizar melhores condições de vida, apesar do nosso fracasso em tornar tais avanços acessíveis a todos. Enfrentar o gigantismo do desafio de reverter o cenário de desigualdade e descontrole da pandemia demanda objetividade, pragmatismo e fruição do valioso acervo de conhecimento produzido pela ciência. Ao mesmo tempo, devemos ser norteados por projeções sucessivas do futuro que almejamos. Por inovações que ainda não existem, mas que podem ser imaginadas. Em meio ao eminente lockdown, nossos sonhos merecem continuar destrancados. Mais do que nunca, precisamos sonhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL