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Rodrigo Hübner Mendes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bem atrasados, mas começamos

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Imagem: iStock

Rodrigo Hübner Mendes

26/02/2021 04h00

"Movimentos de Escolas Antirracistas começa ano letivo com mais negros nos colégios", foi uma das manchetes do jornal "O Estado de S. Paulo", na última semana. A reportagem aborda resultados de um movimento que vem influenciando positivamente diversas escolas particulares de São Paulo no sentido de propor e implementar ações afirmativas voltadas ao combate do racismo estrutural que permeia nossa história.

Para entender melhor como o antirracismo está chegando, na prática, às instituições, conversamos com Angela Fontana, coordenadora do Ensino Fundamental da Escola Vera Cruz, instituição que, segundo a matéria do "Estadão", nos últimos anos passou de uma tímida participação de profissionais negros em sua equipe para um número que agora cresce de forma consistente.

De acordo com seu relato, o ponto mais crítico a resolver era a homogeneidade racial do corpo discente da escola. Essa preocupação começou a tomar forma e urgência a partir de um encontro no início de 2019, em que o professor Fernando Almeida, da PUC-SP, foi convidado a falar sobre o que seria a boa escola. Em sua fala, ficou bem claro que a escola do século 21 precisar compreender os processos de racismo institucionalizados e se assumir como mais um ator responsável por provocar mudanças sociais inclusivas.

Como começar? A escola, juntamente com uma associação formada por pais (Organização dos Pais Solidários), que já praticava ações afirmativas junto à comunidade próxima, estruturou o Projeto Travessias. O objetivo era viabilizar e colocar em prática as políticas de inclusão racial. Para isso, escola e comunidade atuaram em diversas frentes: levantamento da demanda de vagas por alunos negros, mobilização da escola para esse movimento e financiamento das vagas. "A receptividade foi total... eu já esperava por isso", conta Angela.

Mas como viabilizar bolsas? Quantas elas seriam? O que cobririam? Mais uma tarefa que o Projeto Travessia vem cumprindo com muita qualidade. O grupo de pais e apoiadores conseguiu levantar recursos suficientes para garantir 50% do necessário. O Vera Cruz se comprometeu a garantir os outros 50%. E o movimento de captação de recursos continua. Com isso, tornou-se viável a admissão de 18 estudantes de famílias negras em 2021. A meta é admitir, com bolsas, mais 18 a cada ano, e essas bolsas serão mantidas até a formatura do aluno no Ensino Médio. Ou seja: é um projeto que, nos próximos 13 anos, vai mudar a cultura da escola.

O Vera Cruz não está sozinho nessa jornada. Várias escolas de São Paulo, como o Colégio Santa Cruz, o Colégio Oswald de Andrade, o Colégio Equipe, a Escola da Vila e o Gracinha (dentre outras) somam-se a esse movimento e promovem iniciativas semelhantes.

A ausência de pessoas negras, sejam estudantes ou profissionais, nesse segmento de escolas está escancarada desde os primórdios do sistema educacional brasileiro. Mesmo cientes de que o enfrentamento dessa chaga tenha chegado com atraso, vale celebrarmos as mudanças que já podem ser constatadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL