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Rodrigo Hübner Mendes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dois imigrantes, uma oportunidade, a vacina

Professor Ugur Sahin, cientista que liderou desenvolvimento da vacina BioNTech/Pfizer, concede entrevista ao programa Andrew Marr Show, da BBC - BBC News Brasil
Professor Ugur Sahin, cientista que liderou desenvolvimento da vacina BioNTech/Pfizer, concede entrevista ao programa Andrew Marr Show, da BBC Imagem: BBC News Brasil

Rodrigo Hübner Mendes

12/02/2021 04h00

Em 1985, o jornalista alemão Günter Wallraff lançou um livro que marcou a Europa de forma definitiva: "Cabeça de Turco" (no original, "Ganz Unten", que pode ser traduzido como "Bem no Fundo") retrata as agruras e a discriminação sofridas pelos imigrantes na Alemanha. Dois anos antes de escrever essa obra, Wallraff disfarçou-se de turco e exerceu diversas formas de trabalho braçal, em pelo menos três empresas de segmentos diferentes: construção civil, siderurgia e fast food. A partir dessa experiência, narrou com detalhes impressionantes o preconceito sofrido no ambiente de trabalho e no espaço público. Como intercambista, passei três meses em Hamburgo no final dos anos 1980 e pude constatar o desrespeito à comunidade turca implícito nos comentários corriqueiros de alguns dos meus colegas alemães.

Naquele mesmo 1985, o jovem Ugur Sahin dava seus primeiros passos na importante faculdade de medicina da Universidade de Colônia. Nascido na Turquia, vivia na Alemanha desde os quatro anos de idade, quando sua família migrou para lá, e o pai foi trabalhar em uma fábrica da Ford. Muito interessado em ciência, desde pequeno Ugur lia livros sobre o assunto, que conseguia na biblioteca da igreja. Quando terminou o ensino fundamental, seu destino parecia selado: faria um curso técnico e possivelmente continuaria a trajetória do pai em um chão de fábrica. Mas um vizinho da família, alemão, reconhecendo o talento do garoto, recomendou aos pais que o colocassem numa escola que o preparasse para a universidade. Assim, Ugur Sahin foi o primeiro aluno de origem turca a cursar o tradicional Erich-Kästner-Gymnasium. Dali, habilitou-se a cursar a universidade. Oito anos depois, ganhava seu título de doutor em medicina, com uma tese sobre a imunoterapia no tratamento do câncer. Logo depois, conheceu a médica, também de origem turca, Özlem Türeci, com quem viria a se casar.

Convencido de que seus estudos poderiam resultar em terapias que abrissem uma nova frente na luta contra o câncer, fundou, junto com a esposa, o laboratório Ganymed, já que achava que não teria espaço para tamanha inovação nas grandes companhias desse setor. As pesquisas foram bem-sucedidas e a empresa foi então comprada por 400 milhões de euros pela japonesa Astellas.

Em 2008, para dar mais rapidez a suas pesquisas sobre o uso do RNA Mensageiro em imunoterapia individualizada contra certos tipos de câncer, o casal fundou o laboratório ByoNTech. Onze anos depois, a empresa já tinha cientistas de 60 países colaborando com suas pesquisas. Foi quando apareceram as primeiras notícias sobre a covid-19 e a ameaça de uma pandemia. Ugur e Ozlem tomaram então uma decisão que mudaria o enfrentamento da doença: a ByoNTech suspenderia suas pesquisas no campo do câncer e se dedicaria integralmente ao desenvolvimento de uma vacina. Trabalharam sete dias por semana, desde então, e com uma exaustiva carga horária. Em onze meses, haviam conseguido desenvolver uma vacina eficaz. Sua associação com o laboratório Pfizer lhes deu acesso a uma estrutura internacional, que não conseguiriam montar sozinhos em tão pouco tempo.

A história do casal de imigrantes e a do jornalista Günter Wallraff se completam: enquanto esta mostra e denuncia a crueldade da discriminação, aquela deixa claro o quanto a aceitação do diferente e a equalização do acesso à educação podem impulsionar o desenvolvimento de um país. E, seja por vacina ou por civilidade, salvar o mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL