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Rodrigo Hübner Mendes

Independência: será para valer quando for para cada brasileiro

Rodrigo Hübner Mendes Rodrigo Hubner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

Rodrigo Hubner Mendes

12/09/2020 04h00

A semana de celebração da nossa independência me fez lembrar, não de reis ou imperadores, mas de um menino de Sorocaba, interior de São Paulo. Marcos teve um grave acidente de moto, aos 22 anos de idade. Foi atingido por um carro em alta velocidade e precisou ter uma perna amputada, à altura do joelho. Decidiu que iria buscar uma prótese, usando o dinheiro do seguro obrigatório e mais umas economias. Não deu certo. Em poucas semanas, o equipamento trincou e ele não conseguiu que o fabricante lhe desse um novo. Ali já tinham ido todos os recursos de que ele dispunha.

Todos, não. Havia mais alguns: determinação, criatividade, vontade e atenção. A partir da observação da estrutura da perna mecânica trincada, Marcos decidiu construir sua própria prótese. Comprou um cano de PVC e um selim de bicicleta que, completados por outros componentes totalmente improvisados, formaram a estrutura necessária. Com um maçarico, moldou a extremidade do tubo à forma do coto de sua perna. Com o selim da bicicleta, fez o pé. Mais um tanto de tecido, espuma e engenho, construiu sua própria prótese. Gastou, segundo disse, 40 reais - contra 5 mil da prótese que não funcionou.

Sua história acabou viralizando nas redes sociais e um fabricante de próteses de alta tecnologia ofereceu a Marcos um de seus modelos. Mas antes, pediu a seus técnicos que avaliassem o modelo que havia sido construído pelo jovem. A avaliação foi de que a peça cumpria perfeitamente sua função. Marcos havia feito tudo certo - com um cano de PVC, um selim de bicicleta e 40 reais.

Por que essa lembrança, justamente essa, na semana da independência? Porque nós temos, desde que nos tornamos um país, uma dívida social enorme: não conseguimos educar as crianças e adolescentes brasileiros da forma como eles merecem ser educados. Marcos é um exemplo. Mas educou-se sozinho.

Quantos Marcos existem? Quantas pessoas que poderiam ter uma formação melhor e ajudar o Brasil a se desenvolver estão sendo esquecidas? Temos 198 anos como um país livre. Já é tempo de discutirmos se ele funciona para todos os seus cidadãos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Rodrigo Hübner Mendes