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Duas cabanas, um mesmo compromisso com a educação

Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

04/09/2020 04h00

De duas pequenas cidades nos extremos do Brasil, vem uma demonstração tocante de superação e de busca por uma vida melhor por meio da educação.

Em Estrela Velha, na região central do Rio Grande do Sul, a escola estadual local decidiu voltar remotamente às aulas, depois da paralisação imposta pela pandemia. Os alunos receberiam material impresso em suas casas e assistiriam às aulas por meio da plataforma Google Classroom. Para os pouco menos de 400 alunos do pequeno município de 3,6 mil habitantes, a solução parecia adequada. Mas para o estudante Alan Somavilla, as coisas não seriam tão fáceis.

O primeiro obstáculo: a família não tinha sequer um computador em casa para acessar a internet. Também não tinha recursos para comprar um. O pai de Alan, Odilésio, resolveu o problema como estava a seu alcance: comprou um celular usado e instalou um plano de dados de R$ 40,00 para que o garoto de 11 anos pudesse acompanhar a escola. Aí apareceu mais um problema: o sinal de internet na casa dos Somavilla era muito fraco. Seu Odilésio não teve dúvida: saiu caminhando pela pequena chácara até encontrar um lugar em que a recepção fosse melhor. Quando encontrou o ponto, construiu ali uma cabana de madeira e lona plástica e fez dela uma pequena sala de estudos para o filho. Diariamente, o jovem Alan vai à cabana e assiste às aulas.

Algo semelhante aconteceu com a família Sobral, que mora na zona rural de Olho D'Água, no Piauí. A escola local decidiu reiniciar as atividades via internet. Tal como no caso do Alan, a família do adolescente José Caique, estudante do 7º ano, não tinha como propiciar a ele um computador. E sua casa, distante do centro da cidade, não tinha sinal de internet suficiente para que assistisse às aulas em vídeo. Para ter acesso à rede, a família valeu-se do celular de uma tia de Caique, que se prontificou a ceder o equipamento ao garoto. E como resolver o problema do sinal? Seu Francisco, pai do rapaz, saiu caminhando pela região até encontrar um lugar, a 500 metros da casa, em que havia sinal. Ali, construiu uma tenda de madeira e cobertura de folhas de palmeira, aonde diariamente o jovem vai, de bicicleta, acompanhar as aulas remotas. Segundo o pai, as dificuldades foram um incentivo a mais para Caique, que agora estuda com dedicação redobrada.

São dois casos que mostram o imenso potencial do nosso país, e que muitas vezes fica abafado por conta da pobreza extrema e da desigualdade econômica perversa, que nos impede até de conhecer talentos incríveis, como os de Allan e Caique. Jovens que merecem oportunidades iguais para que possam alcançar o seu melhor por meio da educação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.