PUBLICIDADE
Topo

Rodrigo Hübner Mendes

Dez dicas para o ensino à distância por meio do rádio

Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

21/08/2020 11h14

Na última semana, comentei aqui o caso de duas cidades do Rio Grande do Norte em que a rede pública de ensino implantou, com sucesso, um programa de educação à distância baseado no rádio local. Em sua região, uma parcela predominante dos alunos não tinha acesso à internet. O rádio, então, foi a solução.

Em resposta ao artigo, recebi uma simpática mensagem do professor Luiz Artur Ferraretto, coordenador do Núcleo de Estudos de Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor da publicação "Dez passos para o ensino emergencial no rádio em tempos de Covid-19". O livro trata dos limites e das oportunidades que o rádio propicia como ferramenta auxiliar nestes tempos em que o isolamento impõe o ensino à distância. São dez passos ao mesmo tempo simples e importantes para que o educador consiga tirar desse meio tudo o que ele oferece de potencial:

1. Conheça como funciona: o rádio envolve tradição e inovação ao mesmo tempo. Busque ouvir programas e entender meios para estimular a participação e a interação. A internet oferece vários conteúdos sobre isso.

2. Não tenha medo de falar: o microfone nos assusta no começo. Procure abstrair a presença desse objeto e fale como se estivesse em sala de aula. Cabe lembrar que é natural estranharmos quando ouvimos nossa voz gravada.

3. Não fale sozinho: no rádio, você não tem lousa ou outro suporte visual para manter a atenção. Por isso, o melhor é manter uma conversa com ao menos um outro professor. O diálogo ajuda a manter a atenção do ouvinte-aluno.

4. Bata papo com a turma: os alunos não estão à sua frente, mas é como se estivessem. Converse com a turma, crie um bate-papo, mesmo que imaginário, que o conecte com o grupo.

5. Explore o ambiente dos alunos: há formas de nos aproximarmos da dinâmica de um diálogo. Procure entender e interagir com o ambiente do aluno: "sua mãe está por perto?", "seu quarto está organizado?" são exemplos de interação possível.

6. Vá direto ao assunto: o meio rádio não aceita muita introdução. Conte o assunto principal logo de primeira. É a melhor forma de garantir atenção num meio em que ela é tão volátil.

7. Ensine em módulos: você não está em uma sala de aula comum, em que os conteúdos são abordados em aulas de 50 minutos, em geral. O tempo do rádio pede módulos. Idealmente, de 12 minutos, com intervalos. Procure formatar as aulas assim.

8. Avalie com frequência: a cada passo, analise o que foi feito e o que foi alcançado. É importante saber avaliar e, se for o caso, mudar de estratégia.

9. Seja redundante: o rádio é um meio em que a atenção oscila bastante. Tente fazer como os comunicadores profissionais: repita conceitos, reforce ideias.

10. Comece tudo de novo: rádio e educação têm isso em comum. É preciso rever e recomeçar. Temos sempre a chance de aprimorar nossa prática e recomeçar a partir de um novo patamar. É assim também com a educação pelo rádio.

São dez passos que colaboram para que o educador se adapte com mais facilidade a esse meio. Ao final da publicação, há duas lições que merecem destaque. A primeira refere-se à qualidade do educador brasileiro, que, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, não se rendeu aos limites estritos que a desigualdade coloca para a educação em tempos de emergência sanitária, como a que vivemos, e usou os meios que teve à mão para seguir educando. A segunda é um alerta: o Brasil precisa caminhar no sentido de construir uma sociedade mais justa, em que as diferenças sociais não inviabilizem os sonhos de tantos brasileiros. Crianças e adolescentes que precisam de algo muito simples para seguir em frente em sua trajetória educacional: acesso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.